A Doce Canção do Escuro

*Samuel Monducci 
Influências funcionam de uma maneira engraçada. Podemos escutar a mesma frase dos nossos pais todos os dias, durante dezenas de anos, e continuar fazendo o contrário; mas também é possível conversar com uma pessoa uma vez na vida e se apropriar de expressões, jeitos e até ideias. Nunca sabemos o que de fato vai ser importante em nossas vidas, até que você vê – ou não – a diferença que aquilo fez.
Cuidar de uma pessoa cega é um tanto quanto desafiador. Por mais independente e destemida que ela seja, ainda existem grandes limitações e é tarefa de quem o acompanha lhe ajudar nessas limitações. Mais difícil ainda é fazer isso sendo apenas uma criança, que precisa de tanto ou mais cuidados que o próprio deficiente.
Uma relação de cuidado mútuo entre um adulto que recém perdeu a visão e uma criança que mal consegue andar é com certeza complicada. Mas pode dar certo. E deu. Foram cinco anos. Poucas lembranças concretas. E mais influências que se pode contar.
A começar pelo azul. Azul-celeste, sendo mais preciso, com cinco estrelas ao centro. Talvez ele não seja o único culpado por isso, até porque o pai tem uma parcela altíssima também. Mas o tio não deixou de contribuir, mesmo após sua partida, com as histórias mais loucas possíveis.
Mais do que uma paixão pelo esporte, essas pequenas ações nesses poucos anos moldaram todo o ser do já (quase) homem que vos escreve. A valorização do toque, de sentir a energia de cada um pelo tato, vem dele. A vontade de ouvir muito, e de ser também ouvido, também vem dele. A paciência para crianças questionadoras, como eu fui, e a alegria com elas como ele tinha.
Talvez até a profissão de músico, que nem sequer diz respeito ao grande engenheiro que ele foi, mas que faz jus ao seu prazer em se expressar da melhor forma.
Porém, apesar disso tudo, seu sangue azul talvez tenha me ensinado a maior lição quando parou de correr naquela sala de hospital. Não temer a morte é essencial para poder viver. Antes da religião, a experiência após apenas cinco anos de vida já conhecer a morte, valeu mais que tudo. Apesar da tristeza, apesar da saudade, a sua saída da escuridão rumo a uma luz fez com que eu entendesse como funciona o mundo muito cedo. E assim agradeço e me despeço. Ao Walter, Tio Waltinho, como quiser.

A melhor canção que escutei enquanto vivia no escuro.

* Samuel Monducci é aluno do 1.º Ano - Ensino Médio
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