O Monótono e Tedioso Dilúvio Periódico

     


O Sol brilhava como fogo maltratando um sujeito qualquer. Era uma manhã sem muitas nuvens, talvez nenhuma, porém, chovia. A água começava a cair levemente durante o belíssimo dia ensolarado-até-de-mais, enquanto os pássaros assassinavam brutalmente minhocas na varanda de pessoas quaisquer. Neste mesmo instante, os silenciosos companheiros da morada ao lado acordavam não-muito-bem, depois de uma festejada noite com muitos fogos e ao estilo Bonham, após a realização de dois eventos diretamente conectados entre si, o sucesso de um grupo de atletas em uma disputa focada em uma esfera talvez-recheada-de-ouro, acompanhada por meio do aparelho desenvolvido a décadas por Farnsworth, e, a outra, porém não menos importante e decorrente da primeira, uma noite claramente bem dormida pelo casal que ali reside e nada mais. Eles visivelmente não notavam a chuva, somente a cabeça do sujeito qualquer a captou em sua residência.
            O dia continuava belo. Logo, o sujeito qualquer se levantou super-disposto a torná-lo ainda mais belo com exímia disposição e foi se preparar. Preparou-se e, já preparado, foi. Enquanto ia, a chuva piorava, e muito, criando poças inevaporáveis no chão que somente ele notava quase que provocando um pequeno desastre: por pouco não desabou feito um coliforme avípero em uma que era, na verdade, um buraco. Seu meio para ir chegara. Enquanto ia, olhou para fora a 60 km/h no momento que usufruía da caridade do piedoso órgão organizador do caos social, que disponibiliza tamanha estrutura para que, deste modo, ele possa ir, e localizou dois fatores importantíssimos. Acabara de ver um girassol, não da cor do seu cabelo, que se parecia muito com os que o faziam contemplar quando menor e, portanto, que soube identificar que possuía menos pétalas que o comum, e, o outro fator, não se recordara, assim como fora durante toda a semana. A amnésia o atormentava e a chuva discreta piorou, consequentemente. 
            Depois, chegou. Estando lá, havia apenas chegado um indivíduo qualquer em seu grupo de iguais, entretanto, um pouco diferente. Seu dia corria como planejado, potencialmente espetacular e sempre belíssimo. No momento esperado, assentou-se na companhia de seu adversário, o relógio, e, focado não no que deveria e sim no suspiro do vento em sua cabeça durante a esmagadora parte de seu tempo enquanto lá, começou a observar, rodeado por outras almas, essas sim competentes na função que todos, incluindo o sujeito qualquer, tinham que exercer, que a chuva continuava lá, com uma pequena folga comparada a antes. Após um período indeterminado, levantou-se, como as outras almas dotadas de corpo, indo embora para voltar e decidiu-se extintivamente, enquanto seria o auge do sofrimento de um urso-polar, ou meio-dia, a depositar alimentos em seu estômago por questão de sobrevivência sem, claro, excluir a parte do prazer.
            Após sua ceia de Da Vinci, que não era uma verdadeira ceia devido às falhas no horário, retornou para onde não deveria ter saído, enquanto esperava ansiosamente que a chuva fosse embora e o dia se tornasse finalmente e realmente belíssimo. E ela foi, não, na verdade, quase foi, quer dizer, o Sol que já estava lá quase surgiu, ou melhor, durante alguns segundos poderia ter vindo se o sujeito qualquer não tivesse se esquecido como antes. Pior, como se esquecera, piorou. E para piorar, a maratona continuava. Ele largaria na última posição.
            O sujeito qualquer fez tudo de novo, mas agora, com um agravante que aumentaria sua pena, a chuva se transformava aos poucos em tempestade, entretanto, surpreendentemente, ninguém além dele notava. Como deveria devido a questões que fogem do seu controle, se pôs novamente a esperar sentado nas mesmas condições anteriores, na companhia do relógio focado não no que deveria e sim no suspiro do vento em sua cabeça. Agora, para piorar, mentalizava o Sol, que quase chegara. Este, agora, estava escondido debaixo das nuvens negras ansiosas para soltar a qualquer momento um raio no meio de uma floresta qualquer, mais especificamente em um ipê desfolhado plantado pelo ser humano para compensar o desmatamento no local.
            Pensou bastante se sequer pensa, quer dizer, divagou parado durante o tempo em que deveria exercer sua função, e, feita as pazes com seu adversário, levantou-se para ir embora. Os raios pararam, as nuvens ainda estavam lá, elas saíam aos poucos e o sujeito qualquer começava a ver o Sol, o segundo Sol, e ela foi embora, não, na verdade, quase foi, durante alguns segundos as nuvens cinzas poderiam ter ido embora junto com a tempestade e finalmente a chuva se o sujeito qualquer não tivesse se esquecido como antes do fator importantíssimo, de novo. E como se esquece. Não foi.
            Era noite, um sujeito qualquer foi embora. A chuva parou. Levara o dilúvio. Talvez fizera algo, se esquecera o que.


Imagem disponível em: <http://www.tuttartpitturasculturapoesiamusica.com/2010/10/comerre-leon-francois.html>
+