O Recém-Nascido no Mundo dos Enganos


*Marcus Vinícius de Souza

O banco da antiga praça já não estava limpo. Foi o desgaste de tanto tempo exposto aos mais diversos ciclos naturais. A praça tem na memória muitas conversas tecidas e tricotadas por tantas pessoas que ali se encontravam, seja para resolver um problema, para fazer as árvores serem cúmplices de um beijo proibido, para falarem das coisas mais banais que habitam a mente humana e também para noticiarem fatos ocorridos com o vizinho do lado, da frente, do fundo, ou até mesmo da outra rua.

No vento que balançava as árvores a vida se fazia mais próxima. Tão próxima que lá estava alguém tão submerso em si mesmo, sentado no banco esperando por alguma coisa, os olhos fechados para a praça do bairro e não para a de si mesmo. Era Roniê, isso mesmo, Roniê, Roniê dos Santos Peixoto, o Peixoto vinha do pai, um funcionário público que fazia muito gosto em ter esse sobrenome. Era um funcionário público que apreciava cartas e um bandolim ao meio da manhã. Mas Roniê... alguém com um nome desses sentado numa praça tão comum. O que lá fazia um funcionário da prefeitura a uma hora dessas?

Lembrava o primeiro dia em que via a plaquinha preta escrita assim: Roniê dos Santos Peixoto, em letras grandes. Logo abaixo, com letras menores: Vice-diretor de saneamento. É claro que a placa do chefe, o diretor, era duas vezes maior. Restava na sala um cantinho com uma cadeira e uma mesa de três gavetas, duas delas emperradas; o lugar do vice. Estava nesse cargo por ajuda de um vereador, amigo de infância, que quase foi pego, se não fosse certa intervenção, furando o pneu e arranhando o carro importado da professora de  Física e mulher do empresário mais influente da cidade, a Fera, ou melhor, Vera, mais conhecida como Madame Mim. Sentia um enorme prazer em dar notícias avermelhadas aos pobres alunos com dificuldades na cinemática, na termodinâmica, na ótica... razão essa a do emprego já de aproximadamente quatro anos na prefeitura.

Antes dessa ocupação, trabalhava em uma casa de fotocopiadoras, usava um jaleco branco com o nome bordado: Roniê S. Peixoto, operador. Trabalhava lá havia muitos anos até ocupar o tão esperado cargo na prefeitura. Sempre chegava mais cedo que os outros funcionários, por ser o mais antigo empregado, era o responsável em abrir e fechar a loja. Por lá, via tantos outros nomes tão imponentes quanto o próprio: Jean-Jacques, Derrida, Antoine de Saint-Exupéry, Monstesquieu. Achava o emprego interessante, no tempo livre era possível ler muita coisa boa que ficava lá para ser copiada. Havia uns textos não muito fáceis de entender. O difícil mesmo era conseguir manter a calma com uns clientes arrogantes que chegavam no balcão pedindo para fazer muitas cópias sem demora. Uns esmurravam o balcão, outros falavam tão alto que pareciam um apresentador de circo que teve o leão solto. Além, é claro, de ter que tolerar uns sujeitos enrolados que não sabiam quantas cópias queriam ou tinham se esquecido de um documento importante para fazer uma cópia. Então ficavam reclamando, um canto cíclico, de doer o ouvido.

Era um bom lugar para se conhecer e observar diferentes tipos, ações das pessoas e suas personalidades imponentes. Foi também um templo para se cultivar paciência, tolerância, e até a capacidade de escutar, pois havia umas pessoas que além das cópias pediam também opiniões sobre as suas mais profundas dúvidas da existência humana. Mesmo que não soubesse responder – fato muito comum – o que elas queriam mesmo era ter um momento catártico para sentirem, nem que seja por pouco tempo, um alívio de toda pressão e peso que carregavam nas costas por viverem nesse mundo da modernidade inconsistente que apanha, nos campos das árvores aparentes, o vazio.

Esse emprego de operador foi iniciado um mês depois da formatura no colégio. Enquanto os colegas iam tentar a sorte em concursos ou no vestibular – este, poucos iriam fazer –, o objetivo dele era conseguir um emprego. O pai, sempre em dívidas, não podia pagar faculdade ou qualquer coisa parecida. Eram muitos filhos que traziam mais filhos dos filhos para criar, muitos desses queriam apenas se aventurar pelo mundo, estudar? Nada. Restava então batalhar um emprego no comércio.

A vida na escola foi igual à de qualquer um. A amizade com o atual chefe teve início no meio desse período, no 7º ano, e se prolonga até hoje. Afinal, se entregasse o chefe para a diretora do colégio, irmã da Vera, dizendo o que ele tinha feito no carro importado da mulher chacal, o coitado seria expulso e obrigado a trabalhar com seu pai na criação de gado. O estudo era uma fuga.
Parte da infância também foi vivida na escola, mas lembrava, um ano antes de iniciar as primeiras letras, de um pergunta feita à mãe: qual a razão do nome Roniê, já que os colegas eram Beto, Julin, Cacá, Zé? Nomes tão simples, fáceis de falar. Roniê é esquisito. O trissílabo entre dissílabos e monossílabos. O nome Roniê... A querida mãe viu numa revista sobre artistas. Ela achou o nome chique e, por estar grávida, justo naquele momento, pôs nome de Roniê dos Santos Peixoto no menino que seria um recém-chegado ao mundo. O 4 Pai aprovou, dizendo que o menino seria muito respeitado com um nome desses – é... Mal sabia ele que o nome seria razão de tantas gargalhadas na época da escola.

Desde o dia em que nasci até agora, esperando o ônibus para voltar ao trabalho, pude refletir como sou eu, como é o ser humano, precisei rever toda minha vida para descobrir, neste momento, tantos enganos a que vida humana nesse mundo terrestre induz. O meu nome já é o primeiro da lista. Tantas pessoas vivem no engano, será que elas conseguem? Como? São mazelas interpessoais que visam, no fundo, a interesses particulares, a querer se dar bem, a manter uma aparência de boa pessoa. Não, isso não pode ser assim, pelo menos não comigo, se os outros querem viver no engano, eu não, estou farto.


O ônibus está chegando, que bom, vim aqui para pegar um documento que tinha esquecido em minha casa e me lembrei, na espera, na praça, do que esqueci realmente: o documento da minha própria vida. Voltarei a minha mesa naquela prefeitura pela última vez, tirarei o fardo que eu fiz ser carregado por muitos anos nas costas do meu chefe, e sobre a plaquinha na porta da sala com o meu nome: Roniê dos Santos Peixoto – Vice-diretor de saneamento, não quero nem saber, façam o que quiserem com ela.

Marcus Vinícius de Souza é professor  e músico. 

Imagem disponível em: http://www.prof2000.pt/users/avcultur/aveidistrito/boletim03/page55.htm
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