O badalar da loucura


Fernanda Lamounier*

É perto da meia-noite e as luzes de Paris lutam com as sombras que tentam engolir a capital francesa. A Cidade Luz não deixa. As poucas pessoas que circulam pelas ruas que se estreitam entre as antigas construções riem e se divertem sob os efeitos alucinantes da bebida. Explosões de sentimentos, gargalhadas tão afiadas que cortam a noite a qual antes parecia rígida e impenetrável. A Torre Eiffel, imponente sobre a cidade, parece a única certeza de que ainda estão no mesmo lugar onde começaram a noite.

O único lugar antes vazio e silencioso, a rua Montagne St. Genvieve, é inundado pelas vozes que preenchem de súbito sua escadaria. Um grupo de jovens que aparenta o início dos vinte anos grita mais alto do que necessário para uma noite tão calada. A garota morena quase não consegue andar de tanto que gargalha, se apoiando no loiro de óculos. De repente, a dos olhos verde-turquesa se afasta do grupo e parece finalmente perceber onde estão. Seus olhos se arregalam de fascínio.

Entre pulinhos de animação, ela sugere ao grupo que se sentem sobre a escadaria e esperem a marcação da meia-noite. Apaixonada por Woody Allen, acredita piamente que voltará à Paris dos anos vinte se desejar com força. Os amigos riem ainda mais. “Está louca!”, grita o ruivo, e a morena ri um pouco mais alto. Os olhos verde-turquesa da menina se enchem de frustração, mas ainda há um brilho indicando que ela não deixa de acreditar.

Talvez sejam as luzes da cidade refletidas em suas íris, ou apenas lágrimas se formando, mas o brilho permanece lá, inabalável. Como o luar refletido no mar em dias de água verde.

A ironia logo se mostra desnecessária quando o relógio da igreja St Etienne bate meia-noite. Como em um passe de mágica, algo acontece. Se quando criança esse som representava o fim da noite de Cinderela para a garota dos olhos verdes, agora é uma buzina que traz à tona a realidade de seus sonhos. Um carro antigo aparece na esquina, para o espanto de todos ali parados.

O loiro tira os óculos e esfrega os olhos, para ver se enxerga melhor. “Será isso mesmo?”, ele se pergunta em silêncio. Tem medo de loucura ser contagiosa, e de revelar aos outros que está vendo algo que jamais deveria estar ali. A morena passa a culpar a bebida, maldita bebida, não deveria ter bebido tanto, agora está vendo coisas... Já o ruivo está certo de que é uma mera coincidência. Um colecionador de carros está passando por aqui, é o que diz a si mesmo.

A dos olhos verde-turquesa não para e se pergunta se aquilo é real ou imaginário. Qual a diferença? Se for real, quando acabar restarão memórias e, se for imaginário, terão sido lembranças o tempo todo. De qualquer maneira, a sensação perdurará, e não faz diferença se realmente aconteceu. Será louca, porque quer viver algo sem saber se faz parte da realidade? Talvez, mas isso não lhe importa. Ela terá vivido muito mais do que os outros se deixar de se perguntar se está sonhando ou divagando.

Sem pensar duas vezes, ela entra no carro e parte, deixando os três amigos para trás. Eles nunca mais a verão. Dirão que ficou louca, foi parar em um hospício. Fora sequestrada, morta, fugiu. Mas nenhum deles mencionará as duas hipóteses que julgam, no seu íntimo, as mais prováveis, porque elas nunca serão aceitas como verdades absolutas. O senso comum não só é mais fácil como mais plausível. E não é isso que todos queremos? Soar como entendedores, especialistas em qualquer assunto, sentir inflar o peito ao saber mais. Nos agarrar à razão, à realidade. Sonhos são para crianças. Adultos trabalham com fatos.

Contudo, qual a verdade absoluta nos fatos? Não há verdade absoluta, a história prova isso. Pensou-se que a terra era plana, mas era redonda. Pensou-se que o átomo era indivisível, mas na verdade ele não é. Acreditou-se que algas eram plantas, mas na verdade elas se parecem mais com amebas, quem diria? E o mundo continuará assim, em um eterno ciclo de mudança. Nada é imutável, caro Parmênides. O movimento é possível, senhor Zenão. E, aos três amigos da olhos verdes, a sua hipocrisia os destrói. Vocês próprios se dizem pessoas das ciências, mas acreditam em Deus, sendo que existem provas tão concretas para a existência Dele quanto existem de viagens no tempo.

Abram suas mentes. Não se pode provar que algo não é real. Descartes não trouxe a verdade absoluta, dogmas são apenas maneiras de preencher vazios de dúvidas. Não se agarre às palavras do outro, ele pode te enganar. O ser humano não é perfeito e, logo, suas verdades também não são. Pare de procurar respostas. Invente hipóteses para suas perguntas. Quem se importa com a verdade? A vida é curta demais para achá-la. Melhor viver no imaginário.

Os amigos sabem disso. A morena sabe que a olhos verdes pode realmente ter ficado presa nos anos vinte e procura em cada senhora idosa o rosto envelhecido da amiga, mesmo que inconscientemente e, por razões estúpidas, negando fazê-lo. O loiro sabe que ela pode tê-los abandonado por serem incrédulos, sem paixão e racionais demais. Já o ruivo continua enganando-se, mentindo para si mesmo. Ela está morta, repete como um mantra. Quando quem está morto, na verdade, é ele.

*Fernanda Lamounier é escritora e estuda Direito

Crédito da imagem: cenas do filme "Meia-noite em Paris" 
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