Dez Minutos


Por Iago Borges Baptista 

Andou rápido, desesperada para um abrigo. A estação de metrô lhe pareceu um oásis. A chuva era quase congelante. Além de todo o desconforto gerado por aquilo, a decadência da cidade chegava a assustar, e sentiu-se aliviada por chegar às escadas que levavam à estação.
Adentrou os portões da estação e logo a sua ideia de progresso mudou quando analisou seu estado pobre. Luzes falhavam em uma estranha sincronia e algumas até soltavam pequenas faíscas, goteiras por todo o teto e o odor acre de um lugar que durou mais tempo que suportava. A tecnologia parecia ultrapassada e gasta, com exceção dos numerosos e estranhos painéis de LED que cobriam as paredes.
Passou pelas catracas e teve a sorte de encontrar o metrô parado e com as portas abertas. Correu em sua direção e teve que se espremer na porta que fechava. Com alívio, sentou-se num canto e resolveu ouvir música. Fechando os olhos e sentindo a melodia suave, após poucos minutos, reparou em algo. O metrô não andava. Procurou alguém ao lado para reclamar, mas estava vazio. A situação a deixou um pouco tensa e se levantou para chamar ajuda.
O toque alto de seu celular a fez saltar em um susto. Desbloqueou a tela, irritada e leu:
VOCÊ TEM DEZ MINUTOS. ESCAPE ANTES DO TEMPO ACABAR. CORRA POR SUA VIDA.
Teve pouquíssimo tempo para assimilar o conteúdo da mensagem, pois as portas do vagão se abriram, sons sucessivos de baques metálicos reverberaram pela estação e ela foi tomada por uma súbita escuridão.
Gritou por socorro.
Não era possível que a estação inteira estivesse abandonada. Era justamente o horário mais propenso à lotação e alguém teria que aparecer, mas após alguns segundos, saiu aos tropeços do metrô e procurou alguma luz. A única que encontrou foi a dos painéis. Nove minutos, quarenta e oito segundos.
Seus batimentos eram quase audíveis e seus pensamentos estavam em caos completo. Conseguiu ganhar um pouco de controle sobre suas mãos e, com dificuldade, acendeu a lanterna de seu celular e observou seus arredores em busca de uma saída. Para seu desespero, todas elas estavam trancadas. Tentou chutar e usar objetos inúteis como aríetes, tentou até arrombar as fechaduras com uma presilha (mesmo não sabendo como).
Seis minutos, trinta e cinco segundos. Se parasse para pensar, perderia tempo e, possivelmente, sua vida. O desespero só aumentava. Começou a chorar e gritar ainda mais.
Cinco minutos. Seu celular tocou mais uma vez:
ENQUANTO SEU TERROR AUMENTA, SEU TEMPO DIMINUI. AJA AGORA OU NUNCA.
De repente, se encheu de raiva, ódio. Por que estava fazendo aquilo com ela? Quem estava? Não se lembrava de fazer nenhum inimigo capaz de tal jogo doentio. Nenhuma daquelas questões importava no momento, mas a encheram de fúria, e com a fúria veio a clareza.
Começou a caçar algo sólido, qualquer coisa com uma ponta e que fosse maciço. Em um canto úmido, atrás do balcão da entrada, teve a sorte de encontrar um pé de cabra, estava enferrujado e exalava um forte cheiro de cobre corroído, mas as chances de ter encontrado a ferramenta eram tão esparsas que nem notou a decadência do objeto.
Três minutos, vinte e dois segundos. Procurou a porta com a tranca de aparência mais frágil e começou uma sucessão de golpes incessantes. A ferrugem feria suas mãos, mas a adrenalina a impedia de sentir dores. Após dezenas de golpes sem sucesso, percebeu a ineficácia do objeto e o desespero a atingiu novamente.
Dois minutos e dezenove segundos. Sentiu as lágrimas encherem os cantos dos olhos e suas mãos começarem a falhar. E teria desmoronado novamente se não fosse por mais um milagre. O extintor de incêndios que estava ao lado trouxe sua esperança novamente.
            Encaixou o pé de cabra numa fissura da tranca e segurou o extintor por um dos extremos. Deu uma olhadela num dos painéis e viu: um minuto. Seu celular tocou novamente, mas não perderia tempo com as instigações do maníaco maldito.          
            Os golpes recomeçaram, ainda mais fortes que na última vez, e com cada golpe, soltava exclamações de dor e fúria. A tranca deu sinais de falha e os golpes com o extintor aumentaram o ritmo.
            Trinta segundos. Será que conseguiria?            
            Dezenove segundos. Seu corpo começou a ceder, seu fôlego falhava.
            Dez. Queria parar, mas estava quase lá, não podia parar por nada.
            Cinco. Golpe-a-golpe a tranca quebrava, faltava muito pouco.
            Quatro. Iria conseguir, iria conseguir.
            Três. A tranca quebrou, mas encontrou um novo obstáculo: a porta disfuncional e com as dobradiças quase fundidas.
            Dois. Empurrou a porta o suficiente para se espremer para fora, conseguia ouvir os sons das ruas.
            Um. Espremia seu corpo pelo vão que criou e gritava como quem perdeu a sanidade.
            Seu corpo desabou para fora da estação. Chovia ainda mais intensamente do que quando entrou, sentiu as gotas frias cobrirem seu corpo e cambaleou pelas ruas, balançando os braços no ar, pedindo para um carro parar. Um veículo pareou ao seu lado e a porta de trás se abriu. Jogou-se para dentro e fechou a porta agressivamente. Nem olhou para o motorista, pois seu misto de gargalhadas de vitória e lágrimas a impedia de racionalizar. Após se recompor, reuniu fôlego para implorar:
            – Me leva pra delegacia, por favor. Por favor, moço.
            – Calma, calma. – disse o motorista. Você tá machucada?
            Balançou a cabeça, em negação.
            – Qual é seu nome?
            – Raquel.
            – Pode ficar tranquila, Raquel. Vamos pra delegacia. Posso ligar o rádio?  
            Raquel afirmou com a cabeça. O motorista ligou o rádio e dirigiu em direção à delegacia.
            A dor que não sentiu dentro da estação, sentiu no carro. Seus pulmões e braços ardiam e suas mãos sangravam, e após minutos pensando nos eventos traumáticos e ter sentido todas aquelas emoções novamente, sentiu-se estranhamente serena. A ideia de poder viver mais um dia e o jazz suave que tocava no rádio a deixou extasiada. Ficou olhando as gotas baterem no vidro da janela e soltou um grande suspiro de um alívio indescritível. O motorista batia os dedos no volante em sincronia com a música e, sorrindo, olhou para a passageira.    
            – Sabe o que é engraçado Raquel?
            – Não. O que? – Raquel achou o sorriso do homem contagioso e sorriu de volta.
            – Se não fosse por um segundo, você teria conseguido.

Arte original da conoto por Arka Chakraborty em a-r-k-o.deviantart.com


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