Desaparecida


Eu havia perdido minha identidade, e estava desesperada. Quem saberia quem sou eu, se me faltava a identidade? Ninguém se lembraria de mim, já que aquilo que dizia quem eu era estava desaparecida. Eu própria não me reconhecia, era uma mera pessoa de corpo, sem algo para me caracterizar. Em que ponto eu a havia perdido? Minha rotina corrida, apesar de prazerosa, se tornara obrigação, e a busca por quem eu era teve que ficar para depois . A graça da vida se escondeu atrás do medo de nunca mais encontrar aquilo que me tornava alguém. Tantos números e expressões foram utilizados para me identificar, mas nada tão importante e marcante quanto ela.

Poderia dizer que houve um roubo. Minha identidade foi roubada. Mas por quem? Quem se beneficiaria de se passar por mim? Não seria uma boa desculpa para meu descaso comigo mesma? Havia de fato perdido a coisa mais importante que existia sobre mim. Precisava encontrar um jeito de recuperá-la, ou fazer outra. Esta segunda era inviável: muitos sacrifícios seriam necessários para refazer algo que não me incomodava; eu gostava daquela identidade, aquela perdida, e apenas a queria de volta. Seria preciso procurar. Mas onde?

Eu a usava para tudo. Não saía da minha bolha de conforto sem, e também não ficava a sós sem. Tê-la me dava paz. Não poderia ser tão difícil assim encontrá-la, bastava lembrar onde em meu caminho ela havia ficado. Após algumas semanas procrastinando, dicidi procurá-la, e finalmente encontrei e reuni com minha identidade: estava dentro de uma bolsa.

Mariana Capanema Von Bentzeen
Imagem disponível em: <ilricordoperduto.wordpress.com>
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