De Mármore

Não ousavam contar-lhe. Ninguém queria estar perto quando descobrisse. Nem os mais velhos do bando sabiam o porquê de tanto sigilo, mas era o comportamento do grupo e nenhum deles ousava desafiar a norma. Afinal, se vivia com harpias e voava com harpias, deveria ser o caso de não perceber que era gárgula — diferentemente dos outros, para os quais ficava claro o atraso que as asas de pedra lhe causavam em seus voos.

Gárgula era amada, claro que era. Ninguém diria o contrário, imagine! Mas não tinha plumagem dourada em suas asas, não tinha a voz forte e reverberante e, arriscariam dizer as harpias, não possuía a aerodinâmica para o voo. Entretanto, nunca havia atrapalhado o bando.  E a diferença entre ela e as outras muitas vezes era notada apenas pelas próprias colegas. Quem observasse de longe seria surpreendido ao descobrir sobre seu corpo de pedra e medonhas asas de morcego recobertas de pele fina esculpida em rocha, mas sua aparente inocência quanto a quem era de verdade seria fator de mais surpresa, ainda para os observadores externos.

Era de se esperar que, em algum momento, uma das crianças pequenas resolvesse questionar a existência de Gárgula e seu papel na revoada. Dentre as mais jovens, uma de tórax magro e plumagem fina foi a escolhida para a temida tarefa de revelar-lhe a verdade. Fazendo o papel de representante de todos os ouvidos curiosos que acompanhariam a conversa de longe, aproximou-se de Gárgula e gritou por ela. A colega parecia ocupada, voava e ajudava com os afazeres do bando. Naquele instante específico, guiava alguns dos mais novos, receosos em pular das mais baixas torres da catedral. Dizia a eles que não se preocupassem, que voar era difícil, que o peso delas talvez atrapalhasse, mas que logo estariam mergulhando do topo do relógio do telhado mais alto. Confirmava suas lições com um sorriso simpático de quem já havia passado pela mesma situação, mas aprendera sozinha, e logo seus pupilos tomavam coragem para saltar, ao som dos aplausos orgulhosos de Gárgula.

“Sabe, vocês aprendem rápido. Deveriam estar orgulhosos de si mesmos, pois eu mesma, quando tentei planar pela primeira vez, não consegui após dezenove ou vinte tentativas. ”

“E você tentou todas essas vezes? Não se cansou ou desistiu? ”

“Com asas de granito, não poderia me dar ao luxo de desistir. ”

Naquele momento, a criança escolhida para o polêmico trabalho, que não deixara de ouvir a conversa se desenrolando em sua frente, percebeu o que o resto do bando não havia percebido. Voltou para perto dos companheiros, que o bombardeavam de perguntas, para as quais respondeu com apenas uma frase: “Não preciso contar-lhe sua verdadeira natureza. Disse ter asas de granito, mas eu vi pés de marmóre.”

Viviane Lanna é a autora e ilustradora desta narrativa. 



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