Céu

Por Beatriz Castello Branco Miranda

99.3, 94.5, 96.7. Desligo o rádio. Sigo pela Brasil, viro na Nove de Maio e pego a Paulista. Dois atravessam o farol correndo, uma está tão vidrada no celular que quase não vê seu ônibus passar. Os mesmos diálogos, as mesmas situações, as mesmas discussões infundamentadas que não levam a nada. Mais um dia comum na cidade de São Paulo.

O relógio bate seis horas. Horário de pico. Ruas engarrafadas, cruzamentos fechados, barulho, buzinas. Caos. O GPS prevê quarenta minutos de trânsito. Ainda preciso passar no escritório, pegar minhas roupas na lavanderia, ir ao supermercado. Preciso. Preciso. Preciso. Desligo o motor. Fecho os olhos. Respiro fundo.

Entre o barulho dos carros, dos motoristas discutindo e das buzinas incessantes, uma melodia doce e suave chama minha atenção. A mesma melodia que embala o sonho das crianças, que rege o amor dos casais. Uma melodia que reconheço sem pestanejar: o canto de um pássaro. Um pássaro na Paulista?

Abro meus olhos e procuro por ele em meio aos prédios, atrás dos fios de energia. E lá em cima, quase onde meus olhos não conseguem alcançar, ele flutua, com toda sua maestria. Penas brancas como a neve, plumas macias como travesseiro. E voa, voa, dançando em meio ao som do vento, batendo as asas no azul do céu.

Lembro-me dos momentos nos quais, quando criança, ainda em Itabira, me deitava na grama para olhar os galhos das árvores, procurando as aves nos ninhos e vendo o tempo passar. “Quero ser pássaro”, dizia. “Esse menino”, falava minha mãe, “só sabe sonhar”.

A ave vai embora, em direção ao horizonte. Surge em seu lugar uma flor laranja, amarela, violeta. Violeta como as amoras que colhia no pomar de minha antiga casa. Amoras com gosto de inocência, de felicidade, de paz. Amoras doces como o mel das abelhas, saborosas como Ambrosia. Amoras que nunca voltei a provar.

E a flor desabrocha, desmanchando-se em um turbilhão de cores, iluminando tudo ao seu redor. “É a cor que contém todas as cores”, dizia Dona Vera, quando eu, menino, a perguntava sobre a luz do mundo. E a flor segue o caminho do pássaro, caminho desconhecido, rumo ao infinito e toda sua plenitude. Em seu lugar, a escuridão.

Outra buzina. Pisco os olhos. As luzes dos prédios começam aos poucos a se acender. 06:03. O farol abriu. Acelero. Já é tarde, e preciso buscar minhas roupas na lavanderia.


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