Aroldo


*Márcia Alves
O pinto era amarelo, comum, não carregava nenhum carma, embora nascer no terreiro daquela família põe em cheque tal afirmação. Contente entre seus outros irmãozinhos piava mais alto do que todos.

Lá ia o pinto, sem nome, sem identidade, inócuo, contribuindo sem saber para o funcionamento de uma engrenagem que leva a massa para a ração, para a água e por fim para uma panela fumegante.

Era só mais um entre tantos paparicados pelas galinhas ávidas por terem seus filhotes sob as asas. Ele, porém, sentia-se especial! A natureza, espirituosa como ela só, se encarregou de esculpi-lo sem penas. Sendo assim, passou a ser o pinto mais notável do terreiro. Mas sua notoriedade nada tinha a ver com beleza ou imponência. Um pinto pelado, desafinado e magricela não é o que se pode chamar de belo. Chamava atenção o pinto, justamente por ser feio.  Não a feiúra do patinho de um clássico infantil, mas a de um extraterrestre mesmo.

Destacar-se no terreiro colocou o pinto na posição de brinquedo de criança. Os meninos daquela família o faziam de bola, peteca e até de boneca envolto em trapos. Essas interações eram divertidas até notarem a semelhança daquele pinto pelado com o frango cercado por batatas douradas na mesa de domingo. Aí virou a brincadeira favorita das crianças, colocá-lo deitado numa assadeira, na posição tradicional de frango assado, e metê-lo no forno. Quando recebiam visita, a diversão era abrir o forno previamente recheado e dizer em tom de chefe de cozinha:  “Frango assado, senhora?

Ainda era possível ouvir um “piu” participativo da cena. Questionavam-se, por vezes, o fato de o pinto aceitar tal exposição e era curioso como ele ficava quietinho e por tanto tempo naquela posição. Será que ele não se dava conta de que aquilo representava a prévia de um destino iminente?

Mas, secretamente, o pinto acreditava ser aquilo que o tornava especial e colaborava ao máximo. Quando cansados, jogavam-no de volta ao quintal, ainda meio tonto e confuso, para que se juntasse aos seus. Numa dessas, dona Maria ao alimentar os bichos, cuidar da horta, recolher os ovos, tarefa diária, não percebeu que o pinto a cercava devotado e zonzo pelos abusos recém-sofridos. “Pru, ti, ti, ti, ti”, gritou dona Maria convidando a cambada para comer. O pinto pelado avançou para a ração, mas se desequilibrou indo parar debaixo do pé da matriarca. Ela sassaricou, tentou poupá-lo da pisada fatal, amortecendo o peso sobre o pobrezinho. Meio de banda, ele saiu piando com efeitos da borracha do chinelo de dona Maria que chegou a esfolar-lhe a pele contra o chão. O pinto amanheceu amuado, sofrendo os efeitos da pisada mal sucedida. Sentia dor e muito frio. Dona Maria ao percebê-lo triste levou-o para dentro de casa a fim de examiná-lo e constatou algo curioso: o incidente provocara no pinto um descolamento da pele do seu corpo e ele sofria com o ar que se alojara ali, entre a pele e a carne. Cuidadosamente, a dona aplicou-lhe um espinho de laranjeira na nádega liberando o ar e dando à ave certo alívio. O problema é que ele voltava a inflar no dia seguinte. A incisão cicatrizava e o ar voltava a acumular-se.


Espetar o pinto com espinho de laranjeira passou a ser uma atividade diária para todos daquela família. Bastava pousar os olhos no pobre, notá-lo meio fofo e o espinho entrava em cena. Um descuido apenas e o pobre começava a levitar. Já possuía cicatriz suficiente para ser confundido com uma colcha de retalhos. Alguém teve a ideia de chamá-lo de Aroldo por causa do acúmulo de ar. “Frases como “já espetei o Aroldo hoje, não se preocupe”; “espete o Aroldo, por favor, estou atrasada”, passaram a ser comuns naquela família. No começo, espetar o Aroldo era uma atividade até divertida, mas com o tempo ficou enfadonha. Deixou de ser brincadeira e virou tarefa. Aroldo cada dia mais ferido, a laranjeira cada dia mais escassa de espinhos ficara tão pelada quanto o pobrezinho. Não se sabe a razão, mas o Aroldo veio a óbito. Talvez tristeza, talvez infecção... Mas parece que ele era mesmo aquele filhote que se destaca, pela ousadia ou por ser diferente. O fato é que, naquele quintal, Aroldo foi o único frango a ser enterrado em vez de comido, teve direito a uma lápide e ainda que por força do acaso, o único pinto que recebeu um nome, ali.

*Márcia Alves é poetisa e contadora de histórias.  

Crédito da imagem: http://reticenciasrj.blogspot.com.br/2014/10/no-frigir-dos-ovos-dilene-germano.html
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