Pastel do Mercado Central

Lucas Alex*
Já se foi a época em que eu morava no bairro Castelo com meus avós paternos, pais e primos. Todo o apartamento, apesar de pequeno, era imenso em gratidão, amor, educação e paz. Lugar onde meu avô que, hoje já não está mais aqui, e meu pai sempre procuravam manter em ordem todos esses fatores.

Meu avô foi o cara mais gentil e de bom coração que já conheci e vivi junto. Mesmo com dificuldades, ele fazia questão de acordar cedo todo santo dia, pegar um ônibus para ir ao mercado central e lá comprar pasteis para que eu e meus primos tomássemos um café, digamos que único, e especialmente proporcionado por ele. Ao acordar, deparávamos-nos com a mesa contendo alguns sacos cheios de pastéis bem gordurosos. Aquela gordura marcava os sacos e sujava toda a mão.

Dia após dia, estávamos comendo o pastel. À medida que fui crescendo, percebendo percebi que o pastel não era cheio de gordura, mas sim de amor que meu avô tinha pela nossa família;  pois a cada mordida que dávamos no pastel, o coração de meu avô se enchia mais e mais de amor e carinho e seu sorriso ficava cada vez maior.

Por fumar muito, foi-se descoberto que meu avô estava com câncer. Por ser muito novo, eu não sabia da gravidade de tal acontecimento. Assim, as coisas, pra mim, continuavam as mesmas. Após tomar café todos os dias, ia até ele, já deitado, e o abraçava dizendo o quanto o amava. Isso que, para ele, era uma força a mais na luta contra tal doença. Era Uma forma de meu avô continuar vivendo... vivendo para ver o sorriso no rosto de seus netos, ao comer o pastel que ele comprava com tanto amor e carinho.

Chegou a tal ponto que ele não podia nos comprar mais pastéis, pois já se encontrava no hospital: onde percebi que ele estava nos permitindo conhecer por completo algo que se distanciava da vida... cada vez mais. Quando acordava no hospital e não via seus netos felizes comendo o pastel gorduroso que comprava; em cada mordida onde conseguíamos sentir não a gordura, mas o doce, um doce que nos fazia lembrar de seus atos gentis, bondosos, de seu coração enorme e cheio de amor por todos. Distância.

Após sua ida, meu pai escondia dentro de si uma tristeza enorme, o que transformava em contos felizes e heroicos sobre meu avô. A cada manhã que se passava, sentia-se e presenciava um clima de alegria e amor em torno do doce saco de pastéis gordurosos que ficavam no centro da mesa. Agora, abençoados pelo grande e bom homem que meu avô foi.

O presente texto é resultado das oficinas de leitura e criação literária da obra “Vermelho amargo”, de Bartolomeu Campos de Queirós. Lucas Alex é aluno do 1.º Ano do Ensino Médio. 

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