O ralo da pia

Nos últimos dois anos venho experimentando a rotina do lar de modo mais assíduo. Considero-me ainda no nível fácil, pois realizo poucas tarefas perto do que uma casa oferece a todo instante, principalmente com crianças pequenas.

O que aconteceu, gente? Passou um furacão por aqui?

Estou exausta! Acabei de arrumar a casa todinha, mas nem parece – suspira a mãe, depois de tirar os móveis do lugar, varrer, passar pano e encerar.

A casa não para limpa por muito tempo. “É preciso valorizar o incansável trabalho das pessoas que cuidam do lar”, era o que ouvia na infância e muitas mães recitam essa verdade por aí até os nossos dias.

Agora que tenho dado “uma mãozinha” nessas obrigações, confesso que estou redescobrindo o espaço da cozinha, não falo do ato de cozinhar, preparar lanches práticos, um suco ou um café. Falo da cozinha em seu estado crítico, caótico, deplorável: cheia de restos, plásticos, papéis amassados, cascas, sementes... o cheiro do alimento que se foi;  quadro delineado por Heloisa Seixas, no célebre conto “Pelo ralo”.

Antes que o leitor abandone esta crônica por não curtir a ideia de lavar vasilhas, conto com orgulho sobre essa espécie de laboratório em minha vida de “dono de casa”.


A cozinha da minha casa é pequena. Acolhe no máximo duas pessoas. Uma no fogão, a outra na pia, por exemplo. Acima do bojo da pia há um armário branco que fica alguns centímetros da minha cabeça. Em uma de suas janelas, coloco o celular já na página vermelha e branca da web. A partir daí, escolho um músico, um álbum, dou play e viajo.

Espere um pouco...

Quero dizer: inicio os trabalhos. Primeiro, cato os grãos que ficaram nos pratos e os transfiro para uma sacola apropriada. Separo todas as vasilhas plásticas em um canto, assim não pegarão gordura. Empilho os pratos, acomodo os talheres em um canecão. Deixo os copos enfileirados, debaixo da torneira, entre a parede e o bojo. A essa altura restaram as panelas, objetos gigantes naquele ambiente mínimo. As mais pesadas ficam dentro da pia amolecendo. As panelas médias aproveitam mais um pouquinho o espaço do fogão, em cima das trempes, aguardando o detergente e a esponja de aço.

Com bastante cuidado, começo lavando os copos. Já quebrei tantos que agora opto por abrir a sessão com esses transparentes. Aproveito para repassar as horas da manhã, preparando-me para as tarefas da tarde. 

Depois é a vez dos talheres. Com essas peças, minha mente se volta para os memes engraçados da última hora. Hora de garimpar frases ou comentários do dia para “tuitar” mais tarde também. Vai ver que é por isso que fico rindo sozinho, quando estou lavando as colheres.
Os pratos me transportam para o tema das crônicas, para a escrita das resenhas do Baú Vermelho. Esses objetos me dão firmeza, permitindo voos mais altos, em certas ocasiões; o lampejo de um conto.  

Quase no final, ali com as panelas, o fogão para limpar, embrenho-me nas narrativas longas, seja no livro infantojuvenil que se encontra de molho, descansando, seja na novela que vem consumindo as primeiras horas da manhã. Esse é o tempo complexo da terapia: ao som das Quatro Estações, corto, recorto trechos, mexo no conjunto de ações das personagens, arranjo as famílias da trama.

E quando chega o desfecho – momento de passar pano no chão – sinto que aquele tecido enrolado no rodo esfria também meu corpo, regando minhas inquietações. Ainda não sei como explicar essa situação no contexto da casa, mas a sensação que fica é a de que arrumar a cozinha é organizar meu dia. Ver tudo limpo, cheiroso e no seu devido lugar soa como: “bora pra frente!”

  
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