Chega de realidade


Há aquele momento em que os números diversos, dispersos nas nossas vidas cansam de enumerar os momentos de precisão. E o certo que deveria estar encostado na teia da nossa felicidade escorrega em linhas imprevistas à frente de íris com seus arcos de festa.

Há aquele momento que a gente descobre sem saber o porquê que não somos o que deveríamos ser e pegamos o Destino dançando com a sorte do seu azar. Não é preciso ser ninguém de importância nessa louca vida de ânsia. Chega assim de fininho o ninho de verdades que acolhe a nossa dignidade no celeiro daquilo que não somos, estamos.  

Nessas horas, naqueles, nesses, neste momento, resta-lhe dizer que não resto, mas sensações que ficam por várias estações estacionadas em seus perdidos receios. Aí, é hora de se encontrar nos versos de Aberto Caeiro, aquele que guardava rebanhos. Desejo-lhe um ótimo (re)encontro:

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,




Sei a verdade e sou feliz.”


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