Perdemos o contato


A Geração Netflix vem ditando muitos comportamentos. Seu impacto é facilmente percebido no cotidiano escolar. Exemplo disso é o emprego de estratégias narrativas que os alunos recolhem dos seriados de lá. Não sei se alguém tratou desse ponto, mas cada vez mais o mundo teen é influenciado por esse universo televisivo (por que não?), que exige suspense, ação, intrigas e violência. Vivemos a “era dos enredos”.

Penso que há um problema (ou vários) nisso tudo. Possivelmente, soma-se à Geração Netflix a GCB (Geração Cabeça Baixa), também conhecida como Geração Conectada da qual faço (fazemos parte). Eis um ponto!

De fato, estamos conectados? De que tipo de conexão estamos falando nesses tempos ora líquidos, ora gelados? (Que tal assistir a um dos episódios da série Black Mirror pra pensar um pouco sobre isso?... na Netflix tem)

Penso que estamos trazendo muito dos seriados para a nossa vida. Outro dia uma garota contou que tem um aplicativo para acompanhar suas séries favoritas. Quantas séries ela segue ao mesmo tempo? Sete. Onde esses meninos encontram tempo para estudar, praticar esportes, sair, namorar, curtir a vida? Uma grande parcela não arruma. “Sair que nada. Quero ficar em casa curtindo minha série”, ouço muito por aí.

Penso que esse consumo desenfreado (consumismo de seriados? Que loucura, meu Deus!) vai nos afastando dos costumes, dos laços, das raízes. Com tal rotina fictícia temos criado muitas bolhas, redomas de vidro... queremos apenas ser vistos, lembrados, fotografados, comentados, compartilhados. Ouvidos ou criticados?

Não.

Mais do que em qualquer época, vivemos na era “vou te adicionar/você aceita, viu?”; “só te sigo se você me seguir de volta”. Que jovem nunca ouviu algo parecido? Nessas conexões há muito filtro, muitos efeitos. Há destaque para a luz. Luz que não ilumina as diferenças, os contrastes. Uma luz que nos afasta. Treva.

Perdemos o contato. É isso que eu estava querendo dizer desde o início da crônica. Sei que em relação aos parênteses, alguém vai dizer que sou contraditório. E daí? “Quem nunca comeu farelo/aos porcos se misturando/ que atire a primeira pérola?”
Tenho praticamente todas as redes sociais. Não vou mentir, pois de vez ou outra, assisto e acompanho uma série da Netflix. Já levei puxão da orelha dos familiares e amigos por representar a GBC. Estou conectado e não estou, entendeu agora? Estamos. A maior parte dos meus seguidores leu ou lerá esta crônica na tela de um celular. Qual o problema?

Eu sou o problema. Cansei do artificialismo do Whatsapp com suas mensagens rápidas e áudios artificiais. Estou cheio de suas fotos, seus flashes do céu ao inferno; ora sorrindo nas festas, ora chorando suas “bads”. Não tenho paciência para seus textos de protesto no Facebook.

Eu queria apenas poder ouvir sua voz ao telefone fixo, sem tempo contado para desligar. Queria ouvir sua respiração e apreciar a melodia das suas frases. Queria ouvir sua tosse, seus suspiros, suas gargalhadas descontraídas do outro lado da linha. Ah, eu quero sair com os amigos para o bar da esquina  sem ter que se preocupar com aparelho celular. De preferência que todos os nossos aparelhos ficassem desligados descansando no escritório, no trabalho. Aí a gente não se preocuparia em tirar foto, trocar mensagens com o chefe ou qualquer outra pessoa que não estivesse ali na mesa jogando conversa fora, ouvindo música na vitrola...

Dos meus amigos, dois não possuem celular. Conversamos pelo velho aparelho fixo. Eles também não possuem rede social, mas ambos me ensinam lições que nenhum aplicativo ou série passará.
Uma análise?
Um desabafo?
Um retrato?
Uma crônica

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