Antes de cancelar a assinatura

Há semanas o telefone residencial não tocava. Pensei até em encerrar a assinatura. Antes disso, porém, era preciso que uma ligação inusitada nos conectasse a outro mundo.

O telefone toca três vezes. Não tive tempo para soltar, de costume, o seco “pronto”.  

O senhor não me conhece, mas tenho esperança de que vai me ajudar. Vai dar moral. Quem passou seu contato garantiu que você é a pessoa que tem a solução pro meu caso.

– Se for dinheiro, vou logo avisando: quebrou a cara, meu chapa. Estou meio sem tempo pra trote a essa hora do dia. Vou desligar, falou?

– O que tenho pra desenrolar tá na alta. Que dizer... vai tá amanhã cedinho. Vai sair nos jornais, na internet.

– E daí, companheiro? O que tenho a ver com isso?

– Ah, o senhor nem imagina como estou encrencado. Arrumei pra cabeça...

Desliguei o telefone. Trote é uma coisa tão ultrapassada, pensei. Novamente o telefone o toca.

– Imagine se a personagem Capitu pudesse dar um depoimento em relação ao ciúme de Bentinho, assim... para uma plateia com mais de 1000 pessoas! O que seria do Macunaíma às margens do atual Rio Tietê? O senhor já parou para pensar que muitas pessoas estão abandonando esse caos dos grandes centros urbanos e partindo para uma “Cidadezinha Qualquer”, como cantou o poeta Drummond há quase 100 anos?

– Quem é você? Parece tão jovem!

– Um vagabundo que precisa de um pouco de atenção.

– Você não está ligando por engano? De repente gostaria de falar com outra pessoa. Estou aqui  sem entender nada.

– Não. Tenho certeza. Falo com um professor de leituras que também é escritor e desenvolve algumas paradas na quebrada do Nacional.

– Sim. O que posso fazer para lhe ajudar?

– O senhor já está ajudando.

– Como? De que jeito?

– Ouvindo-me.

– Admiro suas reflexões a respeito da literatura brasileira, do nosso tempo, garoto.

– Aí mora o problema.

– Mas não entendo...
– Era a última ligação que tinha direito a fazer. Agora vão me levar pra cela.

– O que houve?

– Nada demais, moço.

– Por que vão te prender, então?

– Eu roubei 384 livros nos últimos anos. Disseram-me que só uma pessoa como o senhor entenderia os motivos.

– Eu?

– Pode ficar tranquilo aí, moço. Não vai dá treta pro senhor.

Bi-bi-bi-bi-bi-bi-bi-bi-bi-bi-bi

Era verdade o que o rapaz dizia: a notícia saiu nos principais noticiários da manhã seguinte. Não exibiram fotos do criminoso. Era só imagem dos livros. Do leitor? Não.

Em homenagem a esse crime, tomei uma decisão importante: não cancelar mais o telefone fixo.  




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