Roubaram-me

 Quarta-feira de todos os anos. Meio da semana. Partidas de futebol pelos campeonatos à noite e a expectativa de um brasileiro normal. Isso existe?
Quarta-feira.
Sempre confiei nas pessoas. A dona patroa, às vezes, diz: “você ainda vai se dar mal”. Numa quarta-feira? É. Quase isso.
Sem alarme, a porta arrombada. Nunca tinha visto nada do tipo, quanto mais numa quarta-feira. Acontece com todos. Essa foi a minha vez. Não pode ser, foi.
— Os caras foram rápidos demais, patrão. Num deu tempo nem de...
O flanelinha veio logo descrevendo a cena com detalhes. Primeiro, o desespero. Documentos, portfólios, planilhas, envelopes, levaram tudo, pensei.
– Não, patrão. Quase nada.
– Como você sabe?
– Eles foram direto ao buraco. Ação planejada, saca?
– Não.
– Olhe o porta-luva!
– Não acredito.
– Nem eu. Eles levaram um livro do senhor. Correram felizes da vida por aí.
– E o senhor não tá puto da vida? Esses vagabundos...
– Calma aí... não é toda quarta-feira que alguém arromba um carro para roubar livros.
– Não estou acreditando. O senhor bebeu?
– Não. Ah, se todos os ladrões deste país roubassem livros? Roubaram-me um livro e estão felizes.

Quarta-feira.
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