Pimenta e rabanete

Eduarda Fernandes*

Tudo começou quando eu era pequena. Meu avô preparava uma salada deliciosa de rabanete, mas tão deliciosa que, da língua ao estômago, eu podia sentir aquele gosto. Um frescor maravilhoso que era proporcionado pelo rabanete picado de todas as formas possíveis. Porém, ele também preparava a pimenta mais ardida que já experimentei. Essa descia como fogo, parecia que acontecia um incêndio dentro de mim.

Quando eu via a felicidade do meu avô, ao receber minha família em casa, era como o rabanete para mim. Os olhos dele brilhavam como diamante. Ele fazia gracinha, dançava e dava altas gargalhadas como se ninguém pudesse ouvir.

Mas nem tudo  são rabanetes. Meu avô era alcoólatra. E minha família o julgava por isso.

Quando sentia o cheiro de bebida vindo dele, quando ouvia as discussões e, principalmente, quando o via triste, no hospital, aquilo ardia como a pimenta que ele preparava. Preparava?  No passado? Sim. Um dia... o álcool e a depressão o mataram, ele já não aguentava as dores nem física nem psicológica.

Ele foi internado, passou alguns dias e há quatro anos, no dia 28 de setembro de 2011 recebi a pior notícia da minha vida: a morte do meu velho. Naquele dia, o sabor refrescante e gostoso dos rabanetes não existia, não tinha mais sentido. E a ardência da pimenta reinava, ardia de uma forma como se meu corpo fosse explodir.

No dia do enterro, quando vi meu avô no caixão, chorei tanto que nem me reconhecia. Porém, depois de um tempo lhe observando, notei que ele estava com um semblante de alívio, de rabanete, de conforto. E aquilo me acalmou de uma hora pra outra.

Meu coração hoje é metade pimenta, metade rabanete. Pimenta pela dor da perda e da saudade, rabanete pelo amor e tranquilidade de saber que meu velho está em paz.


* O presente texto é resultado das oficinas de leitura e criação literária da obra “Vermelho amargo”, de Bartolomeu Campos de Queirós, em 2015. Atualmente, Eduarda Fernandes é aluna do 3.º Ano do Ensino Médio. 
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