Baianin avançando

Admiro cada vez mais as lideranças silenciosas, as ações praticamente invisíveis das pessoas que estão a nossa volta. Na quebrada onde moro tem um desses heróis: Zezim do Salão! 
Na tarde do último sábado fui lá dar aquele tapa no visual. Voltei melhor do que fui. Melhor nos aspectos físico e emocional.
Enquanto esperava para cortar o cabelo, o salão inteiro ouviu um pedido:
– Fiote, lave o cabelo do Farelo!
– É pra já!
No momento, fiquei sem acreditar. Baianin é um dos auxiliares do proprietário do salão. É do tipo “moleque disposição”. Outro dia mesmo estava só servindo balas, cafezinho, ligando/desligando/ trocando o canal da televisão para os clientes. Outra hora, varrendo a loja. Está sempre com um sorriso bastante  acolhedor.  E agora? O rapaz está habilitado para lavar o cabelo dos clientes. Pelo visto, não vai demorar muito para pegar a máquina de cortar cabelo.

– Como esses meninos chegam aqui, Zezim?
– Primeiro, os pais ligam ou vem conversar comigo: “Meu filho está querendo te ajudar aí. Tem como?” Aí, falo com a família pra deixar aqui por um tempo “de quebradinha” pra que eles possam sentir o ambiente, se é isso mesmo que eles querem ou se é somente um “fogo de palha”, entende?
– E depois?
– Se o menino gostar, informo a regra principal: pra ficar aqui tem de estudar!   
A aprendizagem passa por vários processos. Começa com a observação da dinâmica do atendimento ao cliente, cuidados com a limpeza até chegar o dia de colocar a mão no cabelo pro corte, como já fazem Daniel e o Xurupita.    
Voltando à cena do Baianin lavando meu cabelo:
– Qual é mesmo seu nome ?
– Maicon Batista Nunes.
– Onde você estuda?
– Escola Municipal Glória Marques.
– E você está gostando de lá?
– Mais ou menos?
– O que pega?
– Ah, a gente ficou vinte e cinco dias sem aula. Uma sacanagem.
– Mas agora a greve já passou...
– É, só que toda mão a gente fica sem aula.
Naquela altura da conversa, perdi a fala, pois fiquei muito feliz com a espontaneidade do garoto. Num país com tanta evasão escolar, com tantos desvios, ouvir aquilo de um adolescente me deixou emocionado. Zezim percebeu logo minha satisfação.
– Farelo, tem como você postar essa foto no Facebook com o Baianin?
– Sim, mas com uma condição: que eu possa escrever um pouco do que senti, ao saber que esse brother gosta de estudar.
Ao leitor que chegou até aqui, muito obrigado! Como sabe, não é todo dia que a gente recebe um relato assim da quebrada.



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