Bruxo do Cosme Velho

“Uma das causas do desamor à leitura
é a falta de estantes.” Machado de Assis.


Recebi recentemente um vídeo com uma entrevista do historiador Leandro Karnal cuja parte em destaque era a respeito de dicas literárias. Na opinião de Karnal, o escritor Machado de Assis não seria adequado para os alunos do Ensino Fundamental:

“Machado de Assis trata de um certo niilismo, trata de temas como adultério, trata de um certo ceticismo, diante da perspectiva metafísica do mundo. Contos como a “A Cartomante”, “A Igreja do Diabo” e “Pai contra mãe”, que é um dos seus últimos dele, trazem um certo distanciamento do mundo, com uma linguagem que apesar de ser muito direta, com frases curtas e parágrafos curtos. Machado é um pouco difícil para os jovens. Não pela linguagem, mas pela temática. (...)”

Não quero ir contra as ideias do Leandro Karnal. Há uma parcela de verdade no que ele diz. Quem sou perto desse gigante? Meramente um farelo. Não sou nada. Talvez uma migalha, sabe?

Escrevo este breve texto somente para indicar uma obra e, claro, apresentar outro ponto de vista a respeito de Machado de Assis na sala de aula. Não fique impaciente, querido leitor, pois em breve entenderá porque o vídeo do Karnal mexeu tanto com este farelo que vos escreve.

Desde a faculdade, acompanho as discussões sobre o trabalho com a obra desse escritor na educação básica. De modo geral, essas conversas são sempre visitadas pelo senso comum; repetidas e com a falta dos importantes relatos de experiências, por parte dos críticos e puristas. Aí me pego pensando: será que o Karnal já ministrou aulas para adolescentes? Ultimamente ele tem falado para plateias tão diversas, abordando tudo quanto é tipo de assunto. Será?

Não quero a resposta. Seria só mais um pedido utópico. Com relação às respostas dessa natureza, sou machadiano, cético.

Quero mesmo é contar para o Karnal e também para os colegas (professores) uma cena inusitada que me ocorreu no início deste mês.

Foi um sábado letivo (2017 está cheio deles), às 08h, no 2.º horário. Cheguei para a aula de uma turma do 9.º Ano. Os alunos discutiam as obras do trimestre. Para a surpresa de alguns, esses meninos na casa dos treze, quatorze anos falavam com  entusiasmo dos textos que leram de Machado de Assis:

– A história prende a gente, professor.
– Não consegui ler apenas uma vez...
– Tem sempre um lance assim meio bizarro por trás, entende?

Para a surpresa dos alunos, eu abortei a aula teórica daquele encontro para ouvir a impressão deles acerca do Bruxo do Cosme Velho. Naquele bate-papo espontâneo, improvisado, – sem chance de ser reproduzido aqui – ficou evidente o encanto dos meninos pela obra de um dos gigantes da nossa literatura. Rolou feitiçaria ali. Tenho certeza.

Prezado Karnal, para nossa satisfação, há professores, editores, ilustradores que se preocupam com a recepção do Machado de Assis na sala de aula. O livro do qual os alunos falavam, por exemplo, é um exemplar da 6ª edição. Trata-se de uma obra vencedora do prêmio Melhor Projeto Editorial de 1995 – FNLIJ.  

Olha, Karnal, com um projeto gráfico assim tão rico, envolvente, a obra do Bruxo do Cosme Velho só tem a conquistar a galera ali do finalzinho do Fundamental. Com esse cuidado com literatura de Machado, o público de todas as idades só tem a ganhar.

Aos curiosos, em especial aqueles que possuem interesse em adotar esse livro (recomendo), eis as histórias que o compõem:

   “Filosofia de um par de botas” (peça)
  “Niâni” (poema sobre uma lenda indígena)
  “História Comum”, “Ideia de Canário” e “O Dicionário” (contos)

Em suma, com livros sedutores assim, em algumas décadas, o grande escritor ganhará mais e mais “pequenos” leitores.

Era isso.


Detalhes:
12º Título:  Cinco Histórias do Bruxo do Cosme Velho
Autor: Machado de Assis
Ilustradora: Tatiana Sperhacke
Editora: Projeto



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