A dor de Liz

Andrea Tedesco/Esncandinavos. 
A Liz passou mal numa noite dessas aí. Não chegou bem para a aula de teatro. Está lembrado dessa jovem? Liz é aquela moça que tem um namorado para cada ocasião do ano. Para ela, a fila não anda, corre. Tanto que depois daquela crônica ela  partiu para uma nova aventura. Melhor dizendo, garranchou com outro sujeito. Arrumou uma encrenca.

Hora de respeitar o momento da garota. Nem bem relatei o ocorrido e fui me intrometendo na vida da moça. “Que feio, Alfredo”, diriam meus velhos tios.

Entre um exercício e outro, passava alguém enunciando as prováveis causas para dor de Liz:

– Você está comendo direito, menina?

– Aí, você tem tomado muita água?

– Quantas horas você tem dormido por noite?

– Não quer fazer um lanche reforçado?

– Quer que eu ligue para a farmácia?

– Não, gente. Não precisa. Vai passar. Vocês acham que as farmácias vão resolver os problemas do mundo?

– Calma aí, Liz. Não tem que apelar com a gente – disse a Denise.

– Lá tem um aparelhinho que é tiro e queda! A gente fica sabendo na mesma hora. Vamos apostar? – questionou um colega.

– Do que você está falando, garoto? – quis saber Liz.

– Pálida, enjoada, indisposta no trabalho o dia todo?

– O que tem isso?

– Deixe de ser lerda, menina. Você está é grávida e não quer contar pra gente.
– Antes fosse...

Quando ela mencionou essas duas palavras, o silêncio assombrou o grupo. O que poderia está acontecendo com Liz? Era mais que uma dor, uma indisposição. Na verdade, ela parecia insatisfeita com a vida.

– Queria estar “na fossa”, como meu pai dizia. Se curtisse uma bad seria melhor.

Entrei na conversa:

– Liz, solte o verbo. Pode desabafar. Conte pra gente o que está rolando.

– Não está rolando nada. Eis o problema! Eu só cansei de cara babaca. Cansei de ter que lidar com o egoísmo desses otários.



MONÓLOGO (todos os alunos foram se reunindo em volta de Liz. Do mal para o bem...) 
... Um deles teve a coragem de parar o carro no meio do nada, tarde da noite, e pedir pra que eu saísse. Como já não aguentava mais, saí e o mandei para aquele lugar. (Pausa) Burra. Burra. Não precisa perguntar por que, gente. Eu desci do carro e fiquei lá correndo todos os tipos de perigo. A sorte foi que um carro da polícia que estava rondando a área me socorreu. (Liz começa olhar em direção à janela da sala). Estou cansada de receber rosas mortas, entende? O sujeito sabe que eu gosto de receber flores, mas só faz isso nos primeiros dias e esquece que gosto de receber carinho, respeito, atenção. Os f.(controla-se e não dispara o palavrão). Fotos e mais poses, hastag em tudo quanto é rede social para impressionar os amigos. Amigos? Mer. (evitou outro palavrão) coisa nenhuma. Nunca vi deixa a namorada em casa para ficar jogando LOL com os parças... e eu não posso ir ao cinema com as amigas? Quer dizer que minhas migas são “falsianes”. Ele não quer saber o que penso dos amigos dele. Melhor não. Vou respeitar vocês, meninas. (Pausa) Estou cansada de ter que preparar surpresas e receber apenas decepções: as inúmeras horas que ele gasta teclando com não sei quem; os vídeos infantis que ele curte, comenta compartilha com os colegas (Pausa da decepção maior) e que são adorados por meu irmão de seis anos; as vezes que ele tem que aumentar o tom de voz para discordar das minhas atitudes (Liz volta a olhar para seu pequeno público). O triste disso tudo é que mesmo namorando um monte de caras, nunca encontrei algum que... (Liz foi interrompida)

– E você vai continuar procurando?

– A primeira coisa é terminar com esse último babaca.

– Mas homem é assim mesmo. Não presta! – opinou outra garota, mais velha.

– A questão não é essa. Quero mesmo é dar um tempo. Ficar só. Sair de todas as redes sociais. Ter um tempo pra mim. Cansei. Sofri demais.

A professora de teatro entrou e deu o tom:

– Agora você está melhor?

– Sim. Estou mais disposta.

– Vamos voltar para a aula? O que você fez, de improviso, é bem próximo de um monólogo, que é a representação de único ator em cena. Desculpe-me por falar assim, mas o teatro, a arte tem dessas coisas – disse a professora, conduzindo Liz para os exercícios.  


Fiquei do outro lado, lerdando. Meu Deus! Eu nunca pensei que Liz fosse agir daquele jeito. Matou alguns leões. Prometi que não escreverei mais sobre seu perfil namorador. Só uma última pergunta: até quando ela vai conseguir ficar sem arrumar um boy?    

Imagem disponível em: www.abrilvejasp.files.wordpress.com  
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