Mudança de tom

A festa acabou. Ano que vem teremos mais quatro dias. Folias, marchinhas, confetes, serpentinas e a alegria que deveríamos encontrar todos os dias no rosto do povo brasileiro. 
“Por que o senhor fala assim?”
Assim como, menino?
“Até parece que não curtiu com a gente na avenida.”
Não foi a festa que me deixou nesse estado de dúvidas.
“Você está chateado com o fim do horário de verão, então?”
Pelo amor de Deus! Quem foi que inventou esse troço?
“É que daqui a pouco vêm as águas de março, fechando o verão, como na música que vovó fica cantarolando?”
Pode ser. Desconfio que o outono já tenha caído sobre minhas certezas...  
“Ainda não aprendi muito pouco sobre música, mas parece que você mudou de tom nesses dois últimos dias. O que está acontecendo?”
Aprendeu o suficiente para entender que mudei o tom, a cor. Quero mesmo é mudar o ritmo dos hábitos.
“Quer? Que hábitos?”
Sente-se aqui. Vamos conversar. Chega uma hora que a gente percebe que nem todo hábito vira costume, tradição.
“Pra mim, você ainda está viajando. Não entendi aonde quer chegar.”
Então, vou mandar a real, menino.
“Assim que eu gosto! Sem lero-lero”
Que tempo estamos vivendo, de acordo com o calendário religioso?
“Quaresma, uai! Começou com a quarta-feira de Cinzas, certo?”
Isso aí. Por isso o outro tom. Eis a vontade de mudar...
“Ah, já sei: você está assim estranho porque não vai comer carne na Quaresma?”
Nada disso. Não me importo com a carne. Acho que deveríamos trocar a carne por outras privações.
“Você deveria falar de abstinência, não?”   
               É. Sim. A gente tinha que se abster mesmo é dos vícios, das manias, das fofocas. Abster-se das longas conversas vazias sobre a vida alheia. Abster-se da ganância, da insatisfação, do acúmulo de insignificâncias. Abster-se da preguiça para as atividades do cotidiano sagrado. Abster-se das "sofrências " que atraem melancolia e tristeza para as relações sociais. Abster-se do tempo diante da CNN – Central das Notícias Negativas.
               “Calma, aí, ô! Não precisa apelar, pai.”
               Não é apelo, filho. É uma simples mudança de tom. Para este velho que vos fala Quaresma é um pouco disso... reflexão. 

As imagens que ilustram esta crônica estão disponíveis em:
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