A música do cego


Toda sexta-feira, ali por volta das 06h50, um cego me aborda no cruzamento das avenidas Amazonas e Contorno, em Belo Horizonte. Um moço bonito na casa dos seus 45 anos, acompanhado por uma senhora sempre vestida de branco, chega diante do carro, depois que o sinal fecha e nos cumprimenta:

 Bom dia! Sou um membro da Associação de Cegos .... e venho lhe pedir uma ajuda. O senhor pode colaborar com qualquer quantia?

Independente da resposta, ele entrega um panfleto que traz propagandas de um DJ também cego, uma fazenda localizada na região da Serra de Cipó.

Independente da reação, suas últimas palavras antes do próximo passo são de gratidão.

Independente do calor ou do frio, da rua molhada ou seca, seus passos representam o foco de uma pessoa preparada para servir, servindo.

Só que há três semanas, ele não vem. E isso me faz sentir sua falta. A falta de encontrar um homem de quem eu não sei o nome, que tem fome como eu e você, possui problemas, dificuldades, alegrias, tristezas e algumas faltas...

O cego nos ensina que somos dependentes não de moedas, trocados, notas pequenas, mas de palavras serenas, de sinceros enunciados... precisamos mesmo é de ouvir e dizer mais:

MUITO OBRIGADO!!!
Pintura: Alexandre Farto


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