A impossível crônica da insolação

Avenida Amazonas. Facebook do Ângelo dos Reis

Praticamente impossível escrever uma crônica.

– Quantas pessoas compareceram, Joca ?

– A mídia estipulou 100 mil.

– A mídia? Então pode elevar esse número. A mídia apoia aquele sujeito que detesta mulher. Aquele boneco de Olinda. Aquele fantoche que se encontra no poder.

– Ah, não. Você vai fazer protesto aqui agora?

– Eu fui. Eu vi. Eu vivi. Concentramos na Praia da Estação. Fomos recebidos com diversos túmulos: “PROFESSORAS ENFIM APOSENTADAS”. O vermelho do MST, da CUT, o amarelo dos Correios, o laranja  da Petrobrás. Diversas categorias ali debatendo, fortalecendo a proposta dos seus respectivos sindicatos.

– Mas, Joca, conta pra gente aqui: todo mundo do seu serviço foi para a paralisação?  

– Claro que não. Quem disse que nossa categoria é unida? Infelizmente não podemos chamar todos de companheiros. Adoram mesmo é compor o cordão de bajuladores e olhar para o próprio umbigo.   

– Está bem. Conte como foi lá...

– Imagine tu reencontrar num mesmo lugar seus mestres (ex-professores) e seus alunos ali defendendo a mesma causa. Imaginou?

– Não consigo imaginar essas coisas. Parece até filme. Coisa das antigas.

– Parece mesmo. Cê tinha que ver quando chegávamos à altura da Praça Sete e todos cantamos Vandré: “Para dizer que não falei das flores”. Aquilo foi mágico.

– Não acredito. Essa é das antigas, hein? Da Ditadura, não?

– E quem disse que não estamos vivendo uma ditadura, menino? Qual o problema?

Impossível escrever uma crônica depois do dia 15 de março.

– Joca, mas pelo visto essa passeata não teve nenhuma repercussão na mídia. Não vi nada na tv.

– Que merda, menino! Desligue essa porra de televisão. Rasgue esses jornais. Não tem nada de 
fantástico nesse tal de mais você. Mais eles, criatura. Abandone essa vida de torcedor de radinho, saia da frente desse computador (mas antes contraste as fotos das redes sociais com as publicadas na mídia marrom... é tudo merda mesmo). Vá pra rua!

Eu disse:  impossível escrever uma crônica depois da insolação. Em ritmo de febre, ninguém vai ler mesmo. 
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