Verso pobre, crônica nobre

A gota de tinta vermelha, no canto direito, é a fome de só comer no Natal
O moleque equilibrava-se num canto do estacionamento. O moleque destacava as figurinhas. Era uma promoçãozinha!  
 – De que adianta o desconto
Se não tenho um conto?
Nessa vida que tanto maltrata
Não tenho grana nem pra batata
Moço, cê me paga um almoço?
 O moleque não teve tempo pra dizer seu nome. Seu verso era de fome. Raiva não. Devolvi-lhe a rima.
Meu irmão, seu dia é de sorte.
Cruzei seu caminho, posso lhe mandar um norte.
Sou farelo, migalha do pão
Vou lhe pagar o arroz, o feijão,
A salada, o suco e a sobremesa
Chega de tristeza
Bora lá, arrumar uma mesa?
 Ali sentamos. Numa conversa e outra, afastamos a fome daquele dia, mas encontrar o brother naquela tarde foi maior alegria.
 O moleque me pediu um abraço. Claro que não neguei.
– Moço, minha última palavra é gratidão.
– Que bom que nos encontramos na rima, irmão,
Pude conhecer seu perrengue e ofertar-lhe o pão.


  
 Farelo
Tarde  de  11 de fevereiro de 2017
Shopping Del Rey – Belo Horizonte-MG



+