Cronista por um caso

Até outro dia, a filha mais velha não queria ouvir uma história conhecida, dessas que todo mundo conta. Exigia autenticidade:

– Quero uma historinha das páginas da sua cabeça!

E com semblante banhado na autoridade dos reis, corrigia-me nas introduções:

– Histórias que aconteceram de verdade não começam com “era uma vez”. Você não aprendeu ainda?  
Pensei que aquelas exigências, aquelas cobranças todas passariam um dia e eu não teria que ficar preocupado com os enredos pré-almoço. Era isso mesmo?

No ano seguinte, tornei-me um “cronista por acidente”. De tanto ouvir a palavra “marmiteiro” nas salas e corredores do ensino médio, resolvi investigar o que representava tal “adjetivo”. O resultado foi a escrita e a publicação da crônica Não seja uma marmiteiro. (Se quiser lê-la, bastar clicar aqui).

Era para ser uma simples publicação, mas os seguidores curtiram tanto a ideia que começaram a sugerir temas e mais temas para que eu produzisse uma crônica. Optei por publicá-la nas manhãs de quinta-feira. E aos poucos a iniciativa foi ganhando forma e se consolidou em duas temporadas, coincidindo propositalmente com o período letivo. Ou seja, sou o único cronista do Brasil que entra de férias com os alunos.  

É sensacional contar com os “leitores de carteirinha”. Eles tecem comentários, curtem e, às vezes ­– quando a crônica merece (claro) – compartilham tais composições nas redes sociais. E quer saber? A atividade de cronista me enche de incertezas. Eis aí uma mistura de ansiedade, compromisso e desafio.  

Não posso dizer o mesmo da atividade de “contador por pressão”(brincadeirinha). É que minha “ouvinte de fino trato” está cada vez mais exigente. Quer saber de todas as aventuras da minha infância. À medida que ela vai descobrindo as travessuras que aprontei (e não foram poucas), mais detalhes ela quer escarafunchar.

Menino do céu! Eu não sabia que recortar/inventar o passado fosse dar tanto trabalho.

– Pai, já chega. Esta crônica ficou muito grande.

– Esta não é para você, sua "atrevidinha".       

– Então dá pra terminar aquela história de quando você foi levar a porca para casa de sua tia e...?

– Nada disso. Só de pensar, começo a sentir dor na perna.

– Conta. Vai.

– Não. Quem sabe um dia a gente não conta essa história pra todo mundo?  
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