Do futuro para o presente


 A melhor maneira de apreender o significado de uma palavra é, sem vestígios de dúvida, experimentá-la, embrenhar-se nas suas faces. E tive a oportunidade de viver essa afável experiência nas últimas semanas. Adentrei-me no conceito de distopia ou antiutopia,  a saber: tal vocábulo é definido como “lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação”.
Mas antes de narrar o fato, propriamente dito, faço questão de dizer que esta crônica é dedicada aos alunos Arthur Lima e Mariana Capanema, companheiros de viagem da última estação nesse universo denominado literatura
Vai ficar na lembrança aquela cena... bem no meio da manhã, na hora do intervalo, eles foram à sala dos professores e me presentearam com o livro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury (1920-2012). Além do clássico, recebi também uma linda carta, escrita pela Mariana, uma mensagem dessas que a gente se emociona logo nas primeiras linhas. Gratidão, passageiros!
  Orgulhosamente, confesso aos leitores que foi com Fahrenheit 451 que compreendi melhor o significado da palavra “distopia”. Aprender um conceito, viajando nas páginas de um livro? Que maravilha!!!
Recolho as exclamações anteriores e proponho três indagações:
– E se a leitura se tornasse um hábito proibido?
– E se todas as bibliotecas do mundo fossem extintas?
– E se um dia você não pudesse pensar?
Eis o principal tema ou dilema do romance em questão.
            As casas de Fahrenheit 451 são à prova de combustão. Nesse novo cenário, os bombeiros desempenham uma nova função, pois no lugar de apagar incêndios, sua principal tarefa é atear fogo. Imaginou?
            E o que eles queimam? Livros. E a primeira frase da narrativa, em caixa alta é:
            “QUEIMAR ERA UM PRAZER
            Os heróis da higiene pública queimam livros para evitar que suas miragens  perturbem o sono dos cidadãos honestos, cujas inquietações da rotina são controladas por expressivas doses de antidepressivos e, claro, pela onipresença da televisão. Porque, “a felicidade é importante. A diversão é tudo.” Ao queimar os livros, os bombeiros representavam os responsáveis pelo “Bem Geral da Nação”. Não à toa, eles eram tratados como Garotos da Felicidade, a Dupla da Alegria. Eles resistiam à pequena maré daqueles que queriam deixar todo mundo infeliz com teorias e pensamentos contraditórios. Confira ( se possível, escandalize-se, relacione-a com o nosso tempo, nossa política, mas lembre-se de que o livro foi publicado em 1953)  a teoria do personagem Beatty, chefe dos bombeiros:  
“Se você não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê dois lados de uma questão   para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum. Deixe que ele esqueça de que há uma coisa como a guerra. Se o governo é ineficiente, despótico e ávido por impostos, melhor que ele seja tudo isso do que as pessoas se preocuparem com isso.(...) Não coloque as pessoas em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia. Todo homem capaz de desmontar um telão de tevê e montá-lo, e a maioria consegue, hoje em dia está mais feliz do que qualquer homem que tenta usar a régua de cálculo, medir e comparar o universo, que simplesmente ou comparado sem o homem se sinta bestial e solitário.” (p.84-85).  
              
À medida que se avança na leitura da obra, somos tomados por um grande sentimento de angústia; pois a vida vazia e regada de firulas se aproxima por demais desses tempos contemporâneos. Em certos excertos, as confissões se tornam intragáveis, deixando-nos perplexos com a realidade criada pelo autor. 
Não. O enredo não vai só por esse viés. A trama ganha fôlego a partir do momento que o bombeiro Montag descobre que os livros são mais que meros objetos dignos da queima feroz e sádica dos seus colegas. Soma-se a isso a tarefa de queimar uma velha com seus mil livros.

A partir desse episódio e do “roubo” de alguns livros, Montag passa a questionar sua profissão, seus valores, a relação com a esposa. Ele começa a procurar o sentido da sua vida. Pode parecer estranho, mas o moço passa a “pensar por conta própria”; porém tal ato representa um crime.
Montag, um “criminoso”? E o que vai acontecer com a vida do protagonista, se o seu chefe descobrir que ele está guardando livros na sua residência? Não vou responder. Para responder essa e outras questões, convido-o a viajar nas páginas dessa obra. Não quero ficar me estendendo, do contrário corro risco de soltar um “spoiler.   
Fahrenheit 451 é uma dessas narrativas que até quem não gosta de ler deveria encarar... Trata-se de uma obra essencialmente política, uma crítica aos regimes totalitários do século passado e um retrato do nosso tempo, marcado pela influência da TV ou pela avalanche de inutilidades lançadas nas redes sociais.

Detalhes:
Título: Fahrenheit 451
Autor: Ray Bradbury
Tradução: Cid Knipel
Prefácio: Manuel da Costa Pinto
Editora: Globo

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