Outra versão

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Aprendi com minha mãe, na infância, que era importante ajudar as pessoas mais velhas a carregarem suas compras, em especial, as senhoras com as suas sacolas.

Na adolescência, morando em Belo Horizonte, dava uma força para Dona Milô, em uma das lojas do Extra. Encantava-me com a sua cultura, elegância ao pronunciar as palavras. Atenciosa.

Um dia de outono, ela me pagou um café. Enquanto fumava, de forma vagarosa, eu ficava me perguntando: como pode alguém ser tão inteligente assim? Nesse dia, ela estava com um livro nas mãos.

 — Posso pegar, Dona Milô?

 — Fique à vontade, meu filho.

Peguei com cuidado a obra. Abri com mais cuidado ainda. Curti o título, o primeiro parágrafo, o segundo, as três primeiras páginas. O café esfriou. ela perguntou:

— Você gostou?

— Muito. Que ideia bacana desse Kafka! A Metamorfose

— É seu. Um presente.

Dona Milô. A Metamorfose. Até hoje sinto saudades daquele café.

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