O dia de ver meu pai

Contagem, 16 de dezembro de 2016

Prezada Vivina de Assis Viana
sou pai, professor e, orgulhosamente, leitor de obras literárias. Em razão desse aspecto, escrevo-lhe. Peço-lhe um pouco de paciência e, em breve, compreenderá o motivo dessas poucas linhas.

No início dessa semana, no final da manhã da segunda-feira, recebi a nova edição da obra “O dia de ver meu pai”. Ali, bem antes de abrir o livro, no percorrer das várias imagens, fui capturado pelo silêncio da família com suas distâncias: pai e filho na capa – no dia amarelo. Na contracapa, – a mãe, ao longo das tardes e no azul das noites.

Para sentir cada parte que envolve a composição de um livro, li sua biografia, a dos ilustradores, li também a orelha. Tudo na certeza de que o azul e amarelo daquele enredo me reservava uma surpresa. E ao ler o prefácio dessa edição, sua pergunta mexeu por demais comigo. Com esta singela carta, quero tentar responder a tal indagação.

Prometo não estender muito, pois lhe adianto: sua história não envelheceu. Mudam-se os costumes, transformam-se os valores, multiplicam-se as famílias; mas a tessitura de uma narrativa artística/literária não envelhece. Como assim? Onde esse moço quer chegar? Você deve estar se perguntando.  

Vivina, com sua história, descobrimos que é possível imaginar uma cor para o dia de domingo. Tateamos os poros que esse dia nos propõe, ou às vezes, impõe. Dia de dúvida, de reconhecer as dívidas que temos com as pessoas que amamos ou que deveríamos amar.  Não falo de grana, mas do drama que tinge a vida daquele narrador-personagem, porta-voz de muitas crianças com pais separados. Com o domingo, você nos apresentou de modo duro, porém verossímil, a dívida da presença. A realidade de uma criança tendo que enfrentar o cenário da ausência do pai, do sofrimento e solidão da mãe e, ainda por cima, a “perda de espaço” para o irmão mais novo.

A questão, Vivina, é que sua obra não sai da cabeça do leitor. Marca-o. São cenas fortes. Por um lado, o (des)consolo da mãe, por outro, as curtas respostas do pai na sua constante tentativa de recuperar o tempo que esteve com o narrador. Talvez em consequência das leituras da obra de Graciliano Ramos. Quem sabe, esse pai não estivesse ocupando o lugar de um certo Paulo Honório, aquele sujeito que por alguma besteira, sabe-se lá, no passado de um S. Bernardo, separou-se do filho. Tá lembrada? Quem garante que esse Fabiano, por algum momento, não teve sua vida um pouco vazia? Ou será que com a separação, em algum momento, eles tiveram suas Vidas secas? São suspeitas, viu? Nada de julgamentos.

Está vendo, Vivina, o que você fez comigo? Perdoe-me pela informalidade, mas é o que tinha para lhe dizer: sua história de um modo ou de outro é a representação de muitas famílias com as quais convivo diariamente. Em qual turma não nos deparamos com alunos com pais separados? Reconheço que o tratamento dado a essas crianças por seus colegas e professores mudou ou vem mudando. Mas quem está de fora tem condições de, pelo menos, imaginar o que se passa na vida desses meninos?

Com “O dia de ver meu pai”, você percorreu esse universo, Vivina.

Espero um dia poder conhecer suas outras histórias.

Atenciosamente,
Alfredo Lima
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