Dona Helena saiu dos livros

— Você leu Saramago?
— Sim. Memorial do Convento.
O cigarro na mão esquerda, o olhar direto. Ela me fez a pergunta do nada, aproveitando a lacuna de uma aula eu ministrava. Antes da segunda tragada, ela continuou:
— O senhor quer um livro do Saramago de presente ? Estou doando. 
Não é todo dia que a gente ganha de presente um, dois livros do famoso escritor português, não é mesmo? Aliás, o único ganhador do Nobel de Literatura da nossa língua. Pode lhe parecer estranho, mas não pude aceitar. Você deve estar imaginando no mínimo duas situações: ou eu ela ficou louca de doar um título desses ou quem sabe eu perdi a cabeça. Perdemos. Rasguei o verbo, na moral, com delicadeza diante da cinza das horas. Aceitei. Aceitamos as doações.
Essas impressões foram passageiras e ela é a Dona Maria Helena, que não vai ler esta crônica, muito menos compartilhar nas redes sociais. Ao lhe pedir autorização para o presente texto, ela afirmou:
— Pode sim, meu filho. Mas eu não vou ler. Não mexo com esse trem de internet. O que eu gosto mesmo é de ler livros, papel, o impresso. Desde criancinha, leio com voracidade. Venha conhecer os títulos que você levará!
Contei para a Dona Maria Helena do "Livros em todo lugar". Expliquei que todos os títulos seriam doados aos moradores da minha comunidade. Ela se encheu de alegria e ficou ainda mais entusiasmada com a ideia.
— Nesta casa não cabe mais livros.
Ela foi pegando um por um e me repassando. A cada título, um comentário sobre a experiência de leitura. Nesses minutos ela criticou os últimos livros do Umberto Eco, emocionou-se ao falar de Dostoiévski, lamentou algumas edições do Sertões de Euclides da Cunha. E os títulos foram ganhando vida. De suas mãos saíram: Gabriel Garcia Márquez, Clarice Lispector, Machado de Assis, Umberto Eco, José Saramago e tantos outros. Foi de encher o porta-malas do carro.
— Depois, você volta para pegar mais. Não concordo com essa ideia de jogar livro fora.
Ela saiu dos livros. Nunca tinha me visto, mas transformada pelo mágico poder da literatura quer que o prazer da leitura seja também o de muitas pessoas da minha quebrada. Fiquei com uma vontade danada de trocar mais ideias com a Helena que Saramago me trouxe nessa tarde.


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