Cinza


 Monster  
Dói. Dói o tempo todo. No corpo todo. Vazio. O buraco dói. O vazio. A dor no membro fantasma. Dói quando o vento bate e passa pelo lugar onde costumava ficar um coração.
Mas não vou falar dele, do buraco, do vazio. Tudo é cinza. Uma neblina. Eu estou dormente. Só consigo sentir a dor. Eu estou sozinha. Estou mergulhada nela, afundando, afogando, sufocando, gritando. Até que eu decido simplesmente me deixar afogar. Entrego-me. Não consigo lutar mais. Meu corpo, minha mente, estão todos cansados de lutar, resistir.
Os dias são em preto e branco. Cinzas. Sem cor. Só faço o suficiente pra passar pelo dia. Empurrada, arrastada, deslocada eu sou pelos dias. Semanas, meses. Deitada. Morta. Não há vida em mim.
Os dias correm sem eu andar. Obrigam-me a passar por eles. Empurram-me. Tudo dói. Tudo o que eu vejo. Sinto. Cheiro. Falo. Escuto. Como. Abraços, cabelos, cachos. O que eu gosto de sentir agora é a lâmina rasgando minha pele. O ardor. O que eu gosto de ver é o sangue... escorrendo. São minhas lágrimas de dentro. As mais sinceras e profundas.
A dor mais profunda da saudade de chorar em seu peito. Macarrão. Molho branco. Açaí. Tudo tem gosto de carvão. Cinzas. De algo que queimou com chamas tão grandes, quentes e brilhantes. Foram forçadas a se apagarem, após um balde de água.
Tudo tem gosto de dor, sangue, morte. A única coisa que eu sinto cheiro é o cheiro dele. O tempo todo. Como uma maldição, um castigo. Nada mais tem cheiro. O que eu mais sinto falta de ouvir é sua risada. A respiração quando dorme. A voz quando me diz que vai ficar tudo bem. A voz grossa e rouca ao mesmo tempo. Seu sorriso, seu toque. Os cachos, os olhos. Cada centímetro dele dói cem vezes mais em mim. A dor de não poder estar com ele. A culpa. Corrói-me, consome, destrói, come de dentro pra fora, queima-me. Rasga-me.

Eu torço pela sua vida, que você esqueça da minha. Eu torço pra que você seja feliz sem mim. Eu causo dor. Trago sofrimento. Porque por mais que eu te ame com todas as minhas forças, com cada centímetro de mim, sua felicidade importa mais pra mim. Eu suporto a dor. Eu consigo. Eu tomo essa mesma dor como minha,  família, casa. Porque por mais que doa, ela é minha casa. Minha casa cinza, vazia, velha e escura. Sinto-me confortável nela. Dormente. Confortavelmente entorpecida. Mas algo me diz que nessas cinzas há ainda faíscas. Sim! Faíscas que podem reacender o fogo. Mas nem ele pode me salvar. É minha escuridão.
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Nota: O presente texto é resultado das oficinas de leitura e criação literária da obra “Vermelho amargo”, de Bartolomeu Campos de Queirós. Monster é o pseudônimo de um aluno do 1.º Ano do Ensino Médio. 

Nota 2: a imagem está disponível em: <http://www.emcartaz.net/teatro/mostra-2013> 

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