Asas vermelhas


          Àquela hora, eu já estava com as pernas cansadas de tanto subir morros e descer ladeiras. Mas o melhor da brincadeira ficou para o final do dia. Colocaram-me como recreador. Tinha apenas que tomar conta de duas crianças.
Acompanhei os meninos ao destino descrito pelos pais: sala dos brinquedos. Sinceramente, eu nunca tinha reparado esse tipo de ambiente. Estava uma bagunça daquelas.
O menino começou a montar um quebra-cabeça. A garotinha sentou diante de um teclado e, com amor, procurava extrair de lá alguma harmonia. Desliguei-me do mundo e entrei naquele cenário de figurinos rosa, bonecas, carrinhos, pincéis, molduras e tintas de todas as cores. De repente...
Deparei-me com um quadro pintado por uma criança. No cantinho direito da tela estava assinado Eduarda. Era uma cerca na frente de uma árvore relativamente grande. Curiosamente, a raiz era maior do que árvore.
Fiquei imaginando: ...essa artista sabe muito do universo familiar, pois já sabe que as nossas raízes são maiores que os nossos feitos, desejos e sonhos. São maiores que nós.
Mas a enorme raiz não era tudo. Ao lado direito da pintura, parte superior, havia uma borboleta maior que a árvore. Sinceramente, esqueci-me de tudo para sentir o voo daquele bichinho vermelho nas asas de minha (in)consciência. Entre a raiz que se espalha pelo interior da Terra e o infinito azul do céu, voa uma borboleta para inspirar a liberdade que há em nós.
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