A Fantástica Fase Carrapicho


Enquanto a mãe não acordava, redescobri uma das fases da criança. E a caçula, na casa dos 10 meses, não me deixa mentir. Aos pais de plantão, anuncio que esta crônica não soará como novidade. Caso queira, porém, acompanhá-la até o final, ficarei grato pela companhia. Bora lá?
Toda mãe conhece a famosa “Fase Carrapato”. Qual? Aquela em que a criança não desgruda pra nada. Quando vai atender ao telefone, a criança está no colo. Vai preparar o almoço, o lanche da tarde ou jantar? A criança está agarrada. Grudada no mais literal dos sentidos. Até na hora de ir ao banheiro. Você acredita numa coisa dessas? Por favor, só não imagine. Na hora do banho da mãe, também. Resultado: no final do dia, esses carrapatinhos sugaram todas as energias das mamães.          
Por isso mesmo, a maioria vive descabelada. Como fazer as unhas? Das mãos, então? Sem tempo pra academia, sem disposição pra caminhada. Alimentação balanceada, pratos coloridos e equilibrados, nessa fase? Só para nossos maravilhosos carrapatinhos.
E a outra fase?
Para a alegria das mamães, essa “segunda” fase abrange outros territórios, alcança mais colos: das madrinhas, titias e vovós. Claro que os pais são os primeiros da fila.
            Enquanto a mãe não se levantava, (a coitada queria aproveitar um pouco mais a cama naquele fim de semana), a caçulinha assumiu o lugar do relógio, despertando-se às 05:45.
            – Pegue a Clarice aqui, papai. Ela quer ficar com você.
            Com a pequena no colo, lavei o rosto. Antes de escovar os dentes, ela fez questão de passar as cerdas da escova por todo meu rosto. Fiquei de cara escovada. Detalhe: não podia conversar alto, Cecília (a mais velha) estava dormindo.
            Depois foi o momento de abrir a casa, as janelas. Biju veio toda contente, cheia de vontades pra cima da gente. E Clarice quis fazer um breve carinho naquele seu pelo branquinho de poodle levada.  Só que tudo agarrada no pai, como carrapicho.
            Hora de fazer a leitura das frases do dia. Ritual maluco desses artistas da palavra. Clarice entrou na frente e bagunçou as páginas, como que querendo dizer:
            – Você não tem que ler nada nessa hora do dia. Tem que me dar atenção.
            A questão é que, mais tarde, fui encontrar uns fiapos de letras no cantinho de sua boca. Além de carrapicho, ela possui instinto de ratinha...mordiscou algumas páginas nada deliciosas. 
            Com cuidado, pois sou muito desajeitado, acendi o fogareiro. Coloquei a água para o café. Tirei o pó do armário. Ajeitei o açúcar; mas tudo com o carrapicho no colo. Ela acompanhava todos os gestos, mas nada de ir para o chão, carrinho ou sofá. Só queria ali estar. No momento de passar a manteiga no pão:
– Que delícia, papai! Mas não vá comer meu dedinho não – deve ter pensado a pequenina.    
Aquela bagunça danada, mão lambuzada. Não fui tolo de tomar a primeira xícara de café com Clarice. Seria um risco muito grande.    
Depois de uma hora, a mãe acordou, arranjou-se toda e nem bem sentou à mesa, teve que dar o café da manhã para nossa protagonista. A danadinha ali mamando de olhos abertos, com a cara mais lambida do mundo. Eu, no computador, escrevendo a primeira versão desta crônica. Uma experiência e tanto.
Agora, você pensa que aquela amanhã acabou assim?
Nada disso. Alguém tinha que carrapichar um pouco mais. Segure essa.
Recordo-me que havia uma xícara com café já frio, ao lado do teclado.
– Papai, Clarice está de barriguinha cheia. Chegou a minha! Fique mais um pouco com ela – disse a mãe, despejando a garotinha no meu colo.
Ela ficou uns 50 cm da tela do PC. Parece que seu café tinha sido mais reforçado. A bichinha estava com todo gás do mundo. Não parava quieta. Parecia estar com umas sete mãos. Fez ritmo com as letras. Bateu no monitor. Veio pra cima de mim com tudo. Até que...
Até que senti um cheiro forte de café no teclado, colorindo a tela do computador, as letras que um dia foram brancas.
– Nossa, Clarice! Alguém, socorro? Tire essa xícara daqui, por favor.
De repente, ela se acalmou. Assustou-se com minha reação. Ficou comportadinha, virou de costas para o monitor e desferiu o último golpe de poesia daquela manhã: tingiu a lente dos óculos.
E naqueles segundos, ela conseguiu embaralhar minhas certezas, conduzindo-me à breve pausa daquela manhã, não a pausa de lavar e enxugar os óculos; mas o momento para (re)descobrir essa deliciosa fase das crianças.
 Eis a Fantástica Fase Carrapicho! Grudados na gente, os miúdos têm a capacidade de inverter a ordem do dia, quando tudo se enche de alegria.



Imagem disponível em: <http://www.bagagemdemae.com.br/viajar-sem-as-criancas-eis-a-questao>
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