Não gosto mais de você


Pensava que essas histórias só aconteciam mesmo na tv até o dia que fui vítima e vilã de uma situação que não desejo para nenhuma mulher neste mundo. Falo a verdade, professor.
Nosso filho já estava quase completando três anos. Era fim de ano. Virei pro Ricardo e disse:
– Amor, vou viajar com você dessa vez.
– Ah, não vai dar.
- Por que não? Vamos aproveitar essas festas de fim de ano todas na estrada como nos velhos tempos...
– Não vai dar mesmo. Carga muito cobiçada. A transportadora me mandou pra longe. Não vai ser possível.
Eu não insisti. A gente nunca brigava. O Ricardo é um profissional muito competente. Tinha lá seus motivos para não me levar na boleia daquele caminhão.
Só que não.
Passou uma semana, nada. Duas semanas e nada de ele me ligar. Fiquei preocupada. Nem pra saber como a gente estava. Fui à empresa:
– Quero saber notícias do meu marido. Vocês sabem em que estado ele está?
Localiza daqui, lista GPS de lá, ligaram para a central de não sei onde.
– Aqui, dona, conseguimos falar com o Ricardo. Ele está na linha – disse-me o gerente, passando o telefone.
– Ô filho de Deus, o que aconteceu? Cê esqueceu que tem uma família? Não vou ficar batendo boca no telefone da empresa não. Se você não retornar no meu celular dentro de uns vinte minutos, não precisa me ligar mais não – puta da vida, desliguei o telefone.
Em menos de dez minutos, o bendito me ligou, professor. Com ele, só na pressão mesmo. Nunca vi. Perguntei o que estava acontecendo.
– Ju, sabe o que é?  
– Desembucha, homem?
– É que eu não gosto mais do cê.
– Fala de novo. Eu não ouvi direito (era mentira).
– Eu não gosto mais do cê.
– Já sei. Cê tá com outra?
– Não é nada disso.
– Sei. Ó, cê tá de cabeça quente.
– Tô não. Eu vou separar do cê.
– Calma, aí, Ricardo. Nós temos um filho pra criar, entende?
– Não gosto do cê mais não.
– Eu já ouvi essa parte. Quando cê chegar em casa a gente conversa. Pode ser?
– Não.
– Agora cê quer se separar pelo celular?
  O maldito enrolou, esquivou de um lado, estremeceu de outro e nada. Pensei: aí tem. Fui pra em prantos, fessor. Só não chorei na frente do nosso filho. Ali esperei por mais uns quinze dias o Ricardinho voltar.
No dia que voltou não tocou no assunto de imediato. Almoçou, tomou o café da tarde, porém antes de jantar, não resisti, eu toquei no assunto:
– Quer dizer então que ocê não gosta mais de mim? Vamos separar? É isso mesmo?
– É.
– E ocê tem a cara de pau de me dizer que não tem outra mulher na rua, Ricardo?
– Tenho não.
– Tem sim e é caso de muito tempo, não é? É de hoje, ó?
– Não.
– Não é não.
Ali o malvado se entregou. Tava de caso com alguém.
Virei pra ele e fiz as últimas perguntas:
– É isso mesmo que ocê quer? Nossa família não é mais importante?
Nessa hora ele ficou calado. Cheguei bem perto. Segurei suas bochechas e falei baixinho:
– Você tem certeza de que não vai se arrepender do que está fazendo?  
Virei as costas. Não esperei a resposta, mas ela veio alguns meses depois.
Ricardo tinha se enrabichado com uma novinha, bonitinha e que não tinha completado seus dezoito anos ainda. O caminhoneiro ia ser pai de novo. Valente como ele só.
Passaram-se um dois anos. Crescia uma menina lindinha demais, moço.  Ricardo e uma família feliz?
A menina não era filha do Ricardo.

Tem cada coisa essa vida da gente, fessor... 

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