Inesquecível encontro com Carlos Herculano Lopes


O primeiro horário rolando, um pulo na mesa da Helen.
­

– E aí, o escritor entrou em contato? Ele já está na recepção?

Aquele NÃO da Helen, nossa auxiliar de classe, começou a me preocupar, mesmo sabendo que estava dentro do horário. A máxima de que “mineiro não perde o trem” me aliviou. Os professores desceram com todas as turmas para o auditório. Só que o romancista não havia chegado. Organizaram-se por fileiras.

Enquanto isso, fui para a recepção, atravessei a cancela de modo automático. O Miguel viu minha preocupação. De pé, caderno e caneta nas mãos, fiquei ali esperando por alguns segundos. Na hora exata, veio vindo, vindo, devagar, tranquilo e sereno o artista que tanto aguardávamos: Carlos Herculano Lopes.
­

O auditório estava lotado: alunos, professores e funcionários. Depois da fala do coordenador Edelves Luna, fiz de modo rápido o papel de apresentador do artista. A partir daí foi show de bola. Carlos Herculano falou um pouco da sua trajetória pessoal, da vinda para Belo Horizonte, da carreira, do trabalho homérico que é escrever romances. Sempre destacava em sua da importância de se ter foco, objetivo. Cada cena de sua história, uma oportunidade para a rapaziada refletir sobre a própria trajetória.

Durante o mês de junho deste ano, a 1ª Série do Ensino Médio fez a leitura da obra “O Vestido”, narrativa em homenagem ao famoso poema “Caso do vestido”, de Carlos Drummond de Andrade. Ao contrário do processo livro – roteiro – filme, Carlos Herculano atuou de modo inverso. A convite do cineasta Paulo Thiago, criou o argumento para o filme com base no poema de Drummond, em seguida, produziu o romance.

Na ocasião tivemos a oportunidade de ouvir do romancista os bastidores desse rico projeto. Detalhes inesquecíveis, como conhecer o set de gravação, conviver um pouco com os atores que levaram para o cinema os personagens por ele criados, entre outros causos.
Depois de tantas discussões em sala de aula, tanta magia na relação autor x leitor, os alunos choveram de perguntas e comentários para cima do escritor. Tivemos que tirá-lo às pressas de lá, se não agíssemos assim, ele ficaria por lá a manhã inteira. E quem não queria mais um dedo de prosa com o Carlinhos?

Meu amigo, desculpe-me pela demora; mas como lhe prometi, trato feito, trato cumprido. Além do registro desse seu encontro com nossos alunos, discorri sobre uma de personagens. Mergulhei de modo tão profundo nas águas de sua criação que fui motivado a escrever uma espécie de carta, relato, enfim... “um pedido de desculpas.” Imaginei que Barbara, não só entregou o diário a Angela, como também esfumaçou a parede daquele casarão, lendo em voz alta com as linhas que seguem:

Não encontrei nenhuma palavra para expressar minha dor, neste dia. É a dor de existir. Envergonho-me de ter vindo ao mundo. Sinto inveja das pessoas felizes; de pessoas como você, Angela, que teve seu homem de volta; que manteve suas filhas ao seu lado, não caiu nas armadilhas daquele Fausto.
Agora e sempre, só sinto falta, a falta do crescer sem sonhar. Sinto o cheiro do choro. A tristeza está no Morro onde morro, aos poucos, com as batidas indelicadas das horas. Equilibro-me somente na transparência das palavras da tarde.
Arde lá fora um lindo girassol, mas que deveria explodir no meu peito de bárbara, invasora; venho vindo de longe. O que você viu naqueles anos foi um traste. Desconfio que nunca fui humana. Calma, minha querida, pois não estou me fazendo de vítima, de pobre coitada. Não se trata de mais uma encenação. Eu nunca fui uma boa atriz, estive mais para meretriz. E disso você sempre soube.
 Sabe, Angela, eu nunca encontrei a paz, não conheci o silêncio. Sou uma mulher torta, nasci nas sombras, vim ao mundo para festejar o fracasso. Desejo-lhe sorte.
Atenciosamente,
Bárbara  


+