Depois do passinho do Romano

                         – Alô, tia Cristina?
            – Há quanto tempo, hein, moleque?

            – A senhora está bem?

            – O de sempre. Vou levando a vida.

            – A senhora tá de tempo aí?

            – Pode falar. Tempo é o que mais tenho na vida, menino. 

            – É que a molecada lá da escola me colocou numa fria.

            – Bem feito! Vai vê que ocê aprontou alguma com os meninos.

            – Nada disso, tia! Sou um bom moço.

            – Ah, sei. Sua infância ficou na história. Era encapetado por demais. Agora tá aí pagando seus pecados.

            – Ah, maldade, hein?

            – Então, desembucha. Quero saber se é grave mesmo.

            – A senhora não pode contar para minha mães depois não, viu?

            – Agora, de velho, esqueceu que comigo é "feijão sem bicho"?

            – Não. É só para garantir mesmo, tia.

            – O que foi?

         – Fui substituir uma amiga outro dia. A sala de aula estava um alvoroço daqueles. Os meninos estavam num fogo que só vendo.

            – Eu imagino como.

         – Bem, com muito custo, consegui me apresentar e passar a atividade prática. Uns três, quatro até duvidaram da minha opção sexual. A senhora acredita?

            – Só isso? (Brincadeira, seu bobo). Mas é que mesmo velha, ainda tenho lá minhas dúvidas. (te enganei de novo).

            – Posso continuar?

            – Claro, mas sem apelar. Do contrário, desligo o telefone.

            – Faltando uns cinco minutos para terminar a aula, chegou um grupo de garotos e foi logo perguntando: “aí, fessor, cê já deu uma sarradinha no ar?”

            – Que palhaçada é essa, Alfredo? De onde esses meninos tiraram essa indecência? Esse mundo tá mesmo perdido. Moleques atrevidos, hein? Ocê quer que eu ligue pra escola?  

            – Calma, tia. Calma. A senhora não tem que se preocupar ... Não tem nada de indecência nisso. Eles não fizeram por mal.

            – O problema é que ocê é muito inocente. Onde já se viu isso?

            – Na hora eu também fiquei assustado, bem corado por sinal. Passou um monte de coisa na minha cabeça; depois eles explicaram do que se tratava.

            – E o que é isso?

            – Uma espécie de coreografia do funk. Na internet tá cheio de vídeos. A senhora tem que ver. Fui até motivado por um aluno chamado Guilermo. Ele virou e disse: “Aí,  agora o monstro saiu da jaula! Vou te ensinar todas as artimanhas  da lendária arte  da sarrada no ar!” Diz que tem um tal de Tomás Nunes que manda muito bem. A sarrada dele foi espetacular. Bombou nas redes sociais.            
           – Tô fora. Era isso que ocê tinha pra me dizer? É essa a gelada?
            – Não.

            – O que era então?

            – É que amanhã no intervalo vou ter que fazer “a sarradinha no ar”

            ­ – Bip bip bip bip.
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