No meio da bunda


O escritor Carlos Drummond de Andrade eternizou, no mínimo, duas expressões na história da literatura do nosso país. A primeira surgiu e ganhou destaque no célebre poema “No meio do caminho”. Os fãs do artista sempre recorrem ao emprego da “pedra”, presente no meio do caminho. Em reuniões, palestras, em entrevistas no rádio, ouvimos com frequência alusões ao que havia no caminho.

Em contextos semelhantes, de apuros, enrascadas, nas famosas “sinucas de bico” que a vida, às vezes, propõe, Drummond presenteou os leitores com a esplêndida pergunta: “E agora, José?”, do poema que leva o nome desse personagem, considerado um sujeito paciente.

E agora, leitor?  Abandonará a crônica por aqui ou vai esperar um pouco para saber o que há no meio da bunda? Não. Queria dizer, desculpe-me, no caminho das expressões.

Bem, que bom que você continuou lendo! Porém, antes do próximo passo, quero lhe fazer um pedido. (Pode ficar tranquilo, pois não se trata de dinheiro emprestado; nesses ares da crise, é bom adiantar). Quando rolar um tempinho, leia em voz alta, o poema “A bunda, que engraçada”, também de Carlos Drummond de Andrade. Tenho certeza de que você terá outra visão da bunda. Uma visão mais familiar, cheia de... (nada de spoiler).     

Para trabalhar a evolução da escultura na disciplina de História da Arte, conto com a colaboração dos alunos, principalmente na parte voltada para a Grécia. As alunas, sempre mais cuidadosas, ficam responsáveis pela direção da cena; já alguns alunos vão à frente da sala e representam os “Kouros”, “Dorífero”, de Policleto, até chegar ao “Discóbolo”, de Míron. É sempre uma festa. Embora na presença de muitos deuses, não rola nada de nudes, viu? Não fique aí pensando no tanquinho dos boys; muito menos no RG dos gregos (tão minúsculos).

Parando com a bobagem, deve ter gente impaciente por aí: e onde entra a bunda nisso tudo, “criatura das trevas”?

Estamos quase lá...

Depois dessas aulas, passei a observar como alguns jovens valorizam suas nádegas. Incrível! Mais até que as mulheres.
Dizem que a moda é relativamente antiga no Brasil, mas não começou aqui. Nasceu nos centros de detenção dos Estados Unidos. Quando algum presidiário estava carente, em busca de um parceiro para consumar o ato, colocava a calça no meio da bunda para se exibir no pátio da prisão. Banho de sol. Assim, encenava a isca, a fácil presa dos ferozes. Em outras palavras, preparava-se para o abate.

Aqui não. O ato possui outras conotações. Bem, é o que acho até o momento. Em algumas daquelas aulas, quando pelo menos dois jovens em cada sala levantaram a camisa (de modo espontâneo) e vimos uns 50% de suas cuecas, levei um baita susto. Na última  turma, então, disparei algumas questões:

— Douglas, tem como levantar a calça, por favor?

— Vai rolar não, fessor – disse com um sorriso descontraído, conquistando o apoio dos colegas.

— Gente, mas cueca não é peça íntima como calcinha?

— Professor, não leve a mal, é que se trata de uma questão de estilo.

— Andar com a calça no meio da bunda é uma questão de estilo?

— Como estou atrasado. Nossa! Eu nem tive tempo para o suspiro do estilo, o jovem emendou o último disparate:

— Dos brothers que têm estilo aí, quem pode levantar a camisa?

Não teve jeito. Foi muito rápido. Uns quatorze jovens estilosos (só para constar) exibiram suas bundas coloridas, estampadas, de bolinhas, bichinhos. Uma loucura! Nunca tinha visto tanta bunda ao mesmo tempo.


Imaginou a cena das calças no meio da bunda? Pois é, se Drummond estivesse naquela aula... talvez agisse o que eu e as meninas agimos: demos altas gargalhadas e tocamos em frente. 
+