Prosa no busão

      
          Seu motô, por favor, abra esta porta pelo amor que o sinhô tem a Deus. Quanta barbaridade, vê lá se é hora pra essas coisas, com bafo de bode nem o diabo pode, pressa pro trabalho, pressa pra comadre, pressa pros ricardos, pressa pro banco, eu não sei pra que serve tanta pressa, meu Deus! Mas ocê gosta de enfiar o nome d’Ele em tudo, hein? vai vê que é um...Sou mesmo e daí? melhor que ficar vendendo as almas pro bichão a qualquer preço. Confesso que também não sei pra que tantas pernas. Mas devia. Que nada.
         Enquanto o sinhô fica aí vendo a vida passar como uma escola de samba que atravessa, as pequenas cenas, milhares... E aí, menina, o quê mais? Num dá conta de terminar uma frase e vem com tralalá pra cima de mim, pra cima de mim, não. Calma. Estou na minha e ninguém precisa dizer. Sim. Não. Na rua ninguém sabe, todo mundo sabe, a rua permite a falta de limites, a sobra, a...
         Vai, continua! Vai ocê fazer o seu caminho. Ok, mas antes diga: o que é que tem? Ah, agora só posso dizer um pouco do que há. E o que tem? Beijo de resto, boca e meretriz. O que é que há? Cara amarrada, língua solta, fofoca tem. O que é que tem? Mesa, cadeira, leite, café e pão. O que é que há, meu irmão? Guardanapo amassado, copo quebrado, lixo, farelo, sujeira. Mas o que mais que tem? O que é que há? Sujeira, lixo, farelo. O caminho. O resto e o bagaço do silêncio. Um pingo de juízo no olho da rua. 
QUIAT, Farelo de. A terceira porta da lua
Belo Horizonte: Asa de Papel, 2014.p.12
+