O cara faz tudo pra mina

   
                 Aconteceu em uma sexta-feira. Dia aguardado por suas singularidades. Não teria aula no período vespertino. Era só bater o sinal das 12h30 e a galera colocaria a cara no mundo. Para esses momentos de tamanha euforia, ficaria até difícil de ouvir um mirrado “bom fim de semana” da rapaziada. Com tantas atrações no shopping, no sítio, no clube, nas festas; como pensar em matéria nova naquela altura?
            – Trovadorismo é coisa de doido, professor? Quem estuda esse troço ainda?
            – E quem disse que não é? Nós estamos estudando, ora! Ou você vai continuar alimentando a tese de que a “Idade Média” é “Idade das Trevas”, por falta de produção cultural?
            – Relaxa aí, teacher. Tá de boa. É que eu pensei que o lance já tinha acabado.
            – Espere para conhecer “as regras do amor cortês” e vai se sentir no lugar dos trovadores – disse, tentando acalmar o Richard que poderia colocar toda aquela calmaria na lata de lixo.
            Naquela ensolarada manhã de outono, discorri sobre a produção artístico-literária do contexto, dos ambientes mais explorados pelos poetas/cantores/; falei um pouco das configurações das mulheres contempladas em tais cantigas líricas.
            – Do jeito que você tá falando aí, Alfredo, essas mulheres das cantigas de amigo eram também safadinhas. Fazem e não assumem. Cheias de firulas, né? Mulher do tipo c...
            – Calma, Lili! Cuidado com o que você vai dizer – tive que interromper a aluna que quando começa a depreciar uma pessoa, esquece-se de brecar a língua.   
            Parti para as cantigas de amor e, aos poucos, obtive o silêncio de uns poucos alunos que ainda estavam dispersos. Um silêncio que passou a me preocupar, depois de alguns minutos.
            É que no meio desse grupo, agora em silêncio, estava o Vander Caires, mais conhecido como Vandinho. O jovem não olhava para o lado. Grudou os olhos no quadro e acompanhava a explicação como nunca tinha feito antes. Comecei a ficar preocupado, então. Na minha cabeça passou uma série de possibilidades. Será que eu havia falado alguma coisa que não podia? Tinha dado alguma bola fora? (porque sou mestre nisso, sobretudo quando o assunto é relacionamento amoroso... tão efêmero, instável)
               Melhor do que um jovem interessado em sua aula é saber que seu comentário pode acender nos colegas uma deliciosa vontade de também entrar na roda. Ele era o silêncio de todo esse interesse-brasa. Só que chegou um momento que o garoto não conseguiu segurar e se soltou.
            – Fessor, na boa, passou tanto tempo, né? Você aí falando de umas paradas do século XIII.
            – É verdade. São muitos anos. As cantigas líricas datam de um bocado de tempo.
            – Mas o que você não deve saber é que tem coisa aí que tá rolando até hoje. O senhor não faz ideia.
            – Bem, sobre o que você está falando? Não quero que confunda essas características da cantiga de amor não, viu? Por favor, gente, trata-se apenas de elementos que nos ajudam a compreender essas composições. Não vamos misturar as coisas, certo?
            Fique tranquilo, a galera entendeu. Eu é que estou grilado aqui com uma situação que se encaixa perfeitamente no perfil aí da cantiga de amor.
            – Por que você não se abre e conta o que está acontecendo? Desenrole–se.
            É que me veio à cabeça um lance de um colega nosso aí. O cara tava muito a fim de uma mina da série. Então, fazia de tudo pra estar perto dela. Teve um dia que o danado teve a coragem de deixar a caneta cair próximo à mesa dela. Eu até me ofereci para pegar o objeto para ele, no momento da prova, mas não. O sujeito foi lá, esperou o momento certo e pediu para que a tal diva pegasse para a bic pra ele. E nesses poucos segundos, claro, teve a oportunidade de ficar de olho na beleza da moça.
            – Vandinho, mas o que isso tem a ver com o assunto da aula?
            – Calma, teacher. Segura aí. Aqui, você deve ter assistido àquele filme do Will Smith, “Hitch – Conselheiro Amoroso”.
            – Lá vem história – disse um dos seus amigos.
            – Pois é. Nele tem uma cena que a mulher está tentando assinar um documento e a caneta não funciona,  então solicita uma caneta e do nada, como armas, chove um tanto a sua disposição.
            Nessa hora, percebi que alguns alunos começaram a rir do modo engraçado do Vandinho recontar a cena. Só que eu estava boiando legal. E quando ia poder concluir o raciocínio da matéria?
            – Fessor, relaxa aí. Sabe o que essa cena tem a ver com o lance daquele nosso colega?
            – Não. Não faço ideia.
            – Bem, a parada é a seguinte: tanto o nosso amigo quanto os caras que arrumaram a caneta, assim do nada, para a moça representam um tipo de homem ainda muito presente em nossa sociedade. Com certeza veio dessas cantigas de amor aí.
            – Vandinho, tem como você explicar melhor? Falta muito pouco para o término da aula – disse, em tom mais severo.
            – Fessor, calma. Tá vendo aquela expressão que o senhor escreveu lá no canto do quadro?
            – Ok. E o que tem a expressão “vassalagem amorosa”?
            – Tudo. Isso não mudou, fessor. Só o nome. Tá curtinho. Uma palavra só. Pense numa palavra que represente a situação desses caras que fazem tudo que as mulheres pedem (porque a maioria manda mesmo); aqueles caras dispostos a acompanharem a mina no pet, mas não saem pra tomar açaí com os brothers...
            – Não consigo pensar... um escravo?
            – Na trave! Tem uma nova expressão, MC Karol que o diga, depois o senhor tem que ouvir. Mas a treta é outra. A palavra é “escravocetagem”.
            – Que horror, Vander! Que palavra abominável!
            – Para você se inteirar mais do assunto: todo escravoceta usa coleira, tá ligado? É do estilo pesadão. Só se move quando a mulher quer.
            Nessa hora, a galera, que guardava os materiais na mochila, caiu na gargalhada. E eu todo sem graça. Vandinho todo prosa, satisfeito como sempre, era o centro das atenções e não conseguia mais ficar em seu lugar. Era quem dizia sobre o perfil dos colegas do prédio inteiro: fulano é, sicrano não é. E quando bateu o sinal, despediu dizendo:
            – Fessor, fique ligado no lance: o mundo tá lotado de escravocetas.
          Meu Deus, como ando fora de moda.... só de pensar que "pau-mandado" era uma expressão horrível , agora, depois dessa, que susto!
            Por expressões mais lindas...
+