Com pó na nunca

Cena do filme "Última parada - 174" 
Para Luiz Ruffato

... Uma névoa úmida vagava, desamparada, dos vales para o cimo da montanha, parecendo um espírito atormentado buscando inutilmente o repouso. Uma pegajosa e fria névoa, que se propagava com lentidão pelo ar em ondas sucessivas como as de um mar insalubre... Como tenho motivo de pranto, pensa que pedirei pra senhora fechar as páginas do livro, está enganada, no virar das páginas sei que dá conta de prestar atenção naquilo que falo. Fale. Só que não tô a fim de mandar nenhuma prosa hoje. Te conheço, desde a barriga da sua mãe, quando num qué falar nada é porque tá envolvida com alguma treta, a velha aqui lê muito, mas ainda continua nesse mundo, viu? Não precisa esquentar a cabeça, já passou e tá tudo bem. Fale. Num foi nada não, coisa que acontece todo dia com todo mundo e a gente vai levando sem dá muita ligança.  A sua nuca está branca, que sujeira é essa aí, menina? Nada, não, vó. Fale. Não quero. Não vê que já interrompi a leitura? Pode voltar pro seu... Estou escutando. Ninguém vai morrer. No máximo vamos dar uns tiros nos pés de folgados que atrapalharem a nossa treta. Mão pra cima, que num dá pra acreditar que um ônibus a essa hora da manhã; (quantas horas, aí, Digão?;  5h23min) está sendo assaltado e que os companheiros aqui num vão levar nenhum celular, smartphone, iphone,  ipad, ipod e ifoda-se. Num somu desses não, gente! Motô, fica quietinho, continua fazendo seu trabalho aí, que vamu fazer o nosso aqui, sacou? Ô cobrador, acompanha tudo aí sem pensar na besteira de passar algum sinal pra garagem. Pra que incomodar o vigia no seu momento feliz de dar adeus a mais uma noite de trabalho e imaginar que vai chegar em casa e encontrar a mocreia da mulher pedindo dinheiro pra pagar a fatura do cartão que vai estourar no mês que vem? Estouro. Eu disse mão pra cima, porra. Apague as lâmpadas de lá ....caco das lâmpadas florescentes caindo sobre a cabeça dos passageiros. Desligue esse rádio, sua infeliz, presta atenção aqui, que o lance vai ser rápido, não queremos dinheiro, nem objetos de valor. Explico melhor: tamu espreitando esse busão um tempão, cês tinham sido escolhidos desde o mês passado.  Larga de prosa, vamu partir pro lance, cara! Cê tem razão, ajeita as bolsas aí. Ação. Num têm, mais luz, né? Estão gritando, por quê? Vamos levar apenas as quentinhas. Pode ser, minha senhora, pra quem vive de água e papelão, um zuiudo é fílé, com arroz, caviar. Marmitas aqui, só não vamu devolver os vasilhames. Salada de alface separadinha, vai ver que é por isso que o cê tá bonita assim, delícia! Mais respeito com quem está garantindo a comida do nosso dia, cara! Delícia de salada. Tamu chegando aí no final. Assaltantes de marmita, sim. Deu vontade de rir, mas não fui louca, a bala de entrada seria fatal. Tinha bala, menina? Tinha, a bichinha entrou com tanta força que semeou pó na minha nuca inteira, do meu lado ficou quarado de cacos e pó. E a polícia? Senhora tá maluca, vó? Eles pegaram todas as quentinhas e cascaram fora. Detalhes. O busão parou no vermelho e os caras, uns quatro, agradeceram a nossa gentileza, educadamente, e prometeram que não vão assaltar mais a gente neste ano, aí eu não... O mundo tá mesmo perdido, hein? Tá não, a senhora é que é de outra época e não se acostumou com a vida aqui na capital, eu não queria contar esse lance pra que não ficasse preocupada comigo. Acostumada. A capa, posso ver? Charles Dickens, névoa, nuvens, vire a página, pode continuar a leitura.......Vire a página, vá, vó. 
QUIAT, Farelo de. A terceira porta da lua
Belo Horizonte: Asa de Papel, 2014.p.16-18.   

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