Tempos da Quaresma

Aprendi com minhas tias por parte de pai que não se deve comer carne no dia de “Cinzas”, muito menos no dia da “Paixão de Cristo”. Lembro-me de que após aquela festança toda que ouvíamos dizer a respeito do Carnaval era varrida nos comentários dessas tias mães.

Com nomes de afeto e respeito – Celeste e Rosa – elas nos prepararam para o Tempo da Quaresma. Foi nessas conversas que palavras como jejum, abstinência e penitência entraram para o calendário da nossa família.

Tempo mágico: as celebrações de São José, as “Águas de Março fechando o verão”, uma tal “Enchente das Goiabas” e, claro, a imagem do Lobisomem devorando goiabas no pé à espreita das pessoas que desrespeitavam o ritual da Quaresma. Não sei o porquê ainda, mas essa cena do Lobo-Homem comendo goiabas nunca saiu de minhas quaresmas.

Mais do que todas essas célebres imagens da minha infância era a Sexta-Feira da Paixão. Nesse dia, os fazendeiros doavam leite para as famílias mais pobres, corríamos ao curral e enchíamos nossas garrafas e litros. E o doce da sobremesa estava garantido: arroz doce, doce de batata-doce, doce de leite; entravam na mesa também a tradicional goiabada, doce de mamão, cidra, figo. Cada casa fazia um pouco. Com esses doces, adoçavam o Sábado de Aleluia e a Páscoa. Chocolate era muito caro.

Não. Melhor do que o doce era o evento que encerrava a Sexta-Feira Santa. Refiro-me à “Encenação da Paixão de Cristo.” As famílias enchiam a lotação e desciam para o município de Conceição do Mato Dentro. Lá acompanhávamos com muito medo e atenção os passos de Cristo até o momento da Crucificação. Ainda moleque, não sabia muito bem separar ficção da realidade; mas já consciência suficiente para tomar antipatia do personagem Judas e perceber a insegurança de Pedro, ao negar Cristo três vezes. Ficava com as cenas  na cabeça por longos e longos dias.

Agora, adulto, entendo o efeito da Quaresma sobre minha vida. Entre outras coisas, foi nesse período do calendário cristão que conheci a arte do teatro, a necessidade da penitência e a importância de respeitar os valores de nossos antecedentes.

Feliz Páscoa!          

    
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