Rico não separa

Era sexta-feira. Nenhum evento em vista. Mas só foi entrar no Salão do Zezim para deparar com as filosofias do baixinho mais alegre entre os comerciantes da nossa quebrada. Faço questão de destacar uma que rendeu boas discussões. O assunto? Traição! Segure essa, meu irmão:

– Mano, já percebeu que é só pobre que separa? – indagou o Zezim.

Antes que alguém o contrariasse, foi logo desenvolvendo o raciocínio no clique da tesoura:

– É mesmo. Se o cara é rico, tem uma amante, rolo de tempo, e a esposa descobre; o que eles fazem? Vão lá, refrescam a cabeça, primeiro. Em alguns casos, endireita se numa religião, procuram um analista. Os mais liberais, Tião, até trocam os chifres. Sei de um monte assim.  Mas separar? Separa não. Vai caçar perder dinheiro, o conforto?  E a família que eles levaram tanto tempo pra conseguir? Nada disso. Rico é esperto até nessa hora.

A essa altura, os clientes não conseguiam sequer prestar atenção na chuva que caía lá fora. E o Zezim desenrolava sua tese:

– Agora, pobre não, Tião. Acho que é uma questão de orgulho, entende? O sujeito descobriu que a mulher tá lhe tascando uns galhos, vai logo separando. Nem tem coragem de ouvir a versão da patroa. Ou o contrário: a mulher pega o marido com outra, junta as trouxas do cara e põe na rua. E depois? Acaba distribuindo o que eles levaram anos juntando. Separa a merreca que não dá nem pra comprar umas quiçaças direito. Isso quando não arruma alguém pior.  

Assim que terminou de cortar o cabelo da cliente, que pensava na teoria do Filósofo das Tesouras, ele encerrou o raciocínio, recorrendo à sábia frase do pintor Carlim: “Pobre só anda pra trás”.  

Imagem disponível em: <luxodefesta.com/wp-content/uploads/2013/08/casal-dinheiro-625x340.jpg>
+