Um dia no ano

É Sexta-feira da Paixão, meu irmão! Fico assustado com os bares abertos na avenida principal da quebrada. É que venho de uma terra que nem na madrugada deste dia se servia água que boi não bebe, aquela arde pela tarde. 

Saíamos em busca do leite para fazer doce de leite, arroz, batata doce e toda aquela doçura dos fazendeiros que doavam aos pobres um pouco das suas riquezas pelo menos em um dia do ano. 

No almoço comíamos lambari fritinho, traíra, mandi e cará e às vezes um pacu quando conseguíamos pescar. 

À tarde, descíamos para Conceição do Mato Dentro: a missa, as orações e o momento mais esperado lá no adro do Bom Jesus de Matozinhos....a Encenação da Paixão. Muitos atores espalhados nos quadros, nos passos de Cristo. Foi assim que conheci pela primeira vez a arte do teatro. Apaixonei-me.

Mas os bares se fechavam, carne vermelha não entrava em nossa casa, nem a amargura das discussões. Sexta-feira Senta. 
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