O caso do livro

Em 16 de novembro de 2014, no calor da Bienal do Livro de Minas Gerais, fui presenteado com uma das obras de arte do mineiro Nelson Cruz. Ao receber O livro do acaso, um silêncio contemplativo tomou conta do meu mundo, tingindo-o de rosa intacto das páginas de madeirite.

Depois desse primeiro contato, nasceu uma enorme vontade de ler/reler e comentar cada cena, cada imagem com as pessoas do meu convívio. A essa altura já tinha acontecido: eu estava deslumbrado com o projeto. E agora compartilho, neste pequeno ensaio, algumas poucas impressões sobre o livro que recebi de presente. 

A começar pela leitura da capa do livro, dois aspectos atiçam a nossa curiosidade: a presença do madeirite e a árvore — os emaranhados de galhos com o nome de escritores de diferentes épocas. Abrindo a obra e, analisando capa e quarta capa, percebe-se o movimento do misterioso personagem que nos encanta do início ao fim da leitura.

I. O MAESTRO
O livro do acaso é, antes de tudo, um exercício de sensibilidade e descoberta. A primeira, por parte do maestro Nelson Cruz; pois é indiscutível a harmonia musical que a obra demonstra em sua criação, a combinação das frases com a trajetória do personagem é rítmica, sonora, exala música em nossos olhos.

Descoberta para o leitor que, a cada página, percorrerá contextos culturais distintos da literatura (Padre Antônio Vieira e João do Rio, por exemplo), palmilhando o mundo rosa do madeirite: material que permitiu ao artista o arranjo artístico-literário da obra.

Para compor O livro do acaso, Nelson Cruz cruzou frases de 11 escritores da literatura de língua portuguesa, trazendo aos seus leitores nomes pouco conhecidos/estudados, como Auta de Souza, Beatriz Francisca de Assis Brandão e Arthur Azevedo. Ao resgatar tais escritores, o nosso maestro revela a ária da pesquisa, o canto que traz um encanto do leitor que sempre foi e do artista especial que é.

II. PICTÓRICO E DELIRANTE
Nelson Cruz confessa que “nesses anos de trabalho com artes plásticas e ilustração adotou o hábito de colecionar objetos de naturezas diversas, porém que contivessem plasticidade em seu aspecto.” E foi assim que ele viu no madeirite a possibilidade de compor o seu livro do acaso, ali bem no improviso distinto do rosa.


A tessitura desse trabalho dialoga com uma das imagens presentes no empório de Manoel de Barros, que trato aqui como empório das inutilidades, pois o nosso maestro se tornou poderoso por descobrir na insignificância da madeira o deleite para os seus leitores: imagens verbais e não verbais que “relaxam a mente, divertem”. Eis uma história que nos conduz para a cidade distante onde as “ruas têm alma” e o seu principal habitante as percorre poeticamente.
Cena do filme Cantando na chuva
Nesse percurso destaco outros dois diálogos: um com o cinema, outro com a pintura. O protagonista (na p.21) relaciona-se com a famosa cena do longa Cantando na chuva . E na p.25, num momento decisivo da narrativa de Nelson Cruz (que não posso contar aqui, pois você descobrirá ao entrar em contato com o livro) o personagem diante do lago, no espelho d`água  lembra uma das célebres pinturas de Caravaggio, Narciso        
Narciso, pintura de Caravaggio
Ao empreender esse importante projeto artístico, o nosso maestro atuou também no empório de Fernando Pessoa, em especial, nos rios do heterônimo Alberto Caeiro. Por colher frases diversas, organizá-las e ilustrá-las, esse trabalho configura-se como uma espécie de ação daquele “guardador de rebanhos”, um colecionador de cores na superfície infinita dos pensamentos. Assim, será sempre oportuno  dizer que  O livro do acaso é  um caso de poesia. 
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