Atrás da transparência


O primeiro acidente foi grave. Mexeu com a sua transparência, provocando alguns gritos de desespero na inocência de quem o transportava com alegria.
Agora, lembro que o seu medo misturado com algumas doses de adrenalina derramou umas gotas de arrependimento sobre o corpo acidentado. Ela não levou bronca, mas o coitado teve que suportar a dor por muito tempo...até acostumar-se com a perda do seu brilho. E ainda não era o fim.

Era o começo do fim. As obrigações, os compromissos não respeitaram as suas deficiências, ausências no ponto certo, exato. Passaram, então, a ignorá-lo, desfazer-se da sua serventia e lições, enchendo-o de futilidades, enlatados culturais, entretenimentos baratos. Ele não aguentou tamanha que foi a judiação. Cerrou as pulseiras, deu um tiro nas engrenagens, respirou bem fundo (porque ainda deu tempo). Parou. Morreu.  

Pinturas surreais do artista polonês Jacek Yerka
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