Coisa do bicho

“Noite dessas” concluí a leitura da obra Coisa do bicho, de Carlos Herculano Lopes, escritor e jornalista por quem tenho grande admiração. Tivemos o privilégio de comparecer ao lançamento dessa sua última antologia na Bienal do Livro do Livro de Minas Gerais, em novembro do ano passado. 

A começar pela arte da capa, com um tronco de onde saem diversos galhos, sentimos uma espécie de suspense presente nas ramificações da grande árvore. Da raiz, passando pelos ramos, lemos o título que se afirma para, rapidamente, levar o leitor à indagação: Coisa do bicho. Que bicho? Que coisa é essa?

Desconfio, assim como o bom mineiro, de que a capa de tal livro é uma representação daquela árvore das contações de história, muito comum em algumas cidades do interior, para aonde se vai, ao final do dia para bater papo, ouvir uma prosa, colocar em dia os assuntos da semana. Pensando dessa forma, cada galho (com suas ramificações/interpretações) é uma narrativa, uma crônica que compõe o livro. E ler essas narrativas é como se sentir debaixo de uma frondosa árvore: ouvindo e prestando atenção em cada gesto, detalhe do grande contador de histórias que é o artista Carlos Herculano Lopes.

Há nessas estórias uma confluência de imagens, cenários que se multiplicam tanto no espaço urbano — na caminhada debaixo de uma chuvinha fina, na janela do apartamento, na lenta conversa do boteco, na lanchonete — quanto nas grotas e beiradas do brejo, “onde melros, pássaros-pretos e canários cantam”. Seja percorrendo as ruas das grandes cidades; seja trilhando a estrada da memória, tudo se transforma em arte nas mãos desse mineiro de Coluna, cidade do Vale do Rio Doce.

A crônica de Carlos Herculano Lopes tem a peculiaridade de acolher e transgredir o gênero tipicamente nacional, preservando os elementos que representam a cultura mineira, em especial, o gosto pela prosa tecida na conversa miúda do cotidiano.
 
Carlos Herculano Lopes é escritor jornalista
Da narrativa que dá título ao livro e que “pode ser lida como um conto”, assim como escreveu Miguel Sanches Neto, escritor que assinou a orelha da obra, a outras dezenas de cenas a crônica de Carlos Herculano se aproxima do causo engraçado, do capítulo de romance com seus lances românticos, do enredo cinematográfico, enfim, dos diversos flashes que nos permitem conceber a cidade com uma grande obra literária.

Peguei o meu tamboretinho de madeira, sentei-me debaixo da grande árvore e realizei a leitura desse maravilhoso trabalho, nas últimas semanas. E fica a dica, querido leitor. Coisa do bicho é uma publicação da editora Lê e reúne crônicas publicadas entre 2012 e 2013, no jornal Estado de Minas e Revista Encontro Bairros. 
Farelo de Quiat e Carlos Herculano no lançamento do Coisa do bicho
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