Um pedaço do sim

Engenheiro experiente, especialista das indústrias bélicas. Isso mesmo, moço. Não faça essa cara de assustador. Trabalhei na fabricação de armas em dois países lá longe, Dinamarca e Alemanha.

Doei um dos meus rins para um amigo. Três meses depois da cirurgia, ele o levou para sempre, partiu arrancando um pedaço de mim. Desconfio que ele já tivesse desistido de viver há mais tempo.
O meu pai trabalhou numa única empresa durante 35 anos. No seu leito de morte, disse para todos nós, minha mãe e irmãos, que se pudesse viver mais uma única semana faria de tudo para ficar ao lado da sua família.  

Depois dessas lições, desses descartáveis e invisíveis recados das horas, larguei o emprego que contribuía para matar as pessoas, passei a ler mais, voltei ao Brasil e daqui não pretendo sair tão cedo. Gil tinha razão “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”.

O moço parou de narrar sua vida e me ofereceu um pouco de água gelada. Aceitei. Ele virou e concluiu:


— Nem sempre é possível estar cônscio dos perigos da vida. Às vezes, o que ela quer mesmo é um pouco de liberdade.   

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