Saco suado



Um carro novo, limpo. Vidrão. Lá dentro, dois pacotes olhavam pra gente. Ou era nós que olhávamos pra ele? Um transparente, fechadinho e também suado, molhadinho. Cheio de vapor. O outro era de papel e tava estufado. O danado tava cheio de dá gosto, num dava pra vê o que era, mas na certa era coisa boa, uai! Sai daí, menino! Depois esse trem começa tocar, tamu lascado. Roda bacana, pai! Cê lá entende disso? Entendo. Com o dinheiro dessas bichonas aí a gente come por quase um mês. Sai daí, diacho! Depois cê quebra esse espelho...o trem dispara. Num é espelho, pai, esse troço é chamado de retrovisor. Num põe a mão, peste, deve ter ouro aí. Quanto mais eu pedia para o moleque, mais ele admirava o carro do sonho de qualquer outro carro que já tinha passado naquele quarteirão, insistia. O que cê tá fazendo aí embaixo? Até o assoalho cheira, tem umas peças coloridas. O cheiro que a trava sentia não era só da novidade, do vidro do passageiro saía o cheirinho de coisa quente-fresquinha, aí ferrou pro meu lado, moço. Será que o dono desse carro deixa os filhos dele comerem aí dentro? Nenhuma migalha de chips deve poder cair no chão dessa máquina. Vê lá, menino! Rico não come miropam, pipoca Aritana e essas fuleragens que a gente come não. Ah, uma pipoca aqui cairia bem, desde ontem que a gente num come nada, pai, seu fala que a gente num pode xingar a fome porque ela é o tempero da comida, mas minha barriga tá doendo. Tira a cabeça daí, a fome vai passar. Ele foi descendo as vistas e...

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