Gente, ele passou por aqui...

Ele chegou com uma expressão diferente na face, nos passos, com movimentos frios, calculados. Ele trazia uma folha de redação, mas nos entregou apenas o verso das linhas, omitiu as pautas da tradicional página a ser escrita. A nossa desconfiança é de que ele queria que preenchêssemos, traçássemos outras possibilidades em nossas vidas.
Ele saiu e voltou com um pequeno som. O som não queria funcionar. Em silêncio, demorado silêncio, ele saiu com o som da sala e foi em busca de ajuda. Trouxe da coordenação uma professora, que também entrou em silêncio na sala. Enquanto ela ligava o som, deixava-o preparado para o play, ele apagava o quadro da razão da última hora. Ela se foi. O quadro ficou limpo.

Ele ligou um som. A gente não podia falar nada. Comentar nada. Apenas seguimos as orientações que foram escritas e apagadas no quadro. Havia uma espécie de progressão entre a música que tocava e o que ele escrevia.

Não. Agora eu não posso contar mais nada. Ele não gosta. Ele pediu para que não espalhássemos por aí essa ideia de “aula do choro”, encontro do alívio, espelho das perdas, caco de restos do meu, do seu, do nosso silêncio.  

Imagem disponível em: <http://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bf206a4da/12883053_ydKvR.jpeg>
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