Preto líquido, branco frágil

– A senhora me paga duas xícaras de café?
– Três. Uma pra cada. Mas quem é a terceira pessoa?
– Não é uma pessoa, mas será sua representação.
O moleque retirou alguns tocos de giz do seu imundo paletó e fez alguns desenhos no ar, em silêncio. O garçom serviu o café.
– Gosta de fumar, não é, dona?
– Gosto. Aceita um careta?
Ele não fumava. Começou a derramar a xícara de café sobre a mesa de madeira. Usava a mão direita. Com a esquerda, manuseava o giz para fazer os contornos de um desenho preto em branco. Um preto líquido, um branco frágil. Por uns trocados, pelas moedas de duas canecas de café, o moleque desenhou a mulher.
– Onde aprendeu a desenhar? Você é um grande artista
– Na rua. Desenho nas calçadas, praças e becos iluminados.
– Quanto você quer nesse desenho?
– A senhora já pagou o trabalho e ainda forneceu o material. Comprou-me duas xícaras de café. Agora, só vou limpar a mesa e pronto.
A senhora, muito feliz pelo retrato do anônimo artista, pediu que ele assinasse a obra. O moleque mandou o seu nome na mesa.
– Garçom? Por quanto o senhor me vende a mesa?
– Suja desse jeito? 150,00.
– Negócio fechado. Ela é minha.
Nenhuma obra do artista tinha sido comprada. Ele não estava acreditando.
A elegante senhora assinou um cheque com um valor para milhões de cafezinhos e entregou ao menino.
– Você pode levar até à caminhonete para mim?
– Sim.
– A gente se encontra por aí, provavelmente, em algumas bienais, salões de arte...num ateliê.

O menino não conhecia nenhum daqueles nomes. Era artista por vocação, misturava as cores da rua com os segredos da lua. Era estrela não, mas aquele café trouxe-lhe uma constelação. 

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