Seus cacos, meus restos


O relógio entrou de férias na minha frente. No ano passado, seu vidro beijou o chão e trincou. Na semana passada ele simplesmente parou. Talvez esteja cansado de tudo, entediado com todos, não queria mais registrar os meus restos de tempo, nem minhas migalhas de credo. Tic-tac — Tic-tac. Pare de ler essas minhas palavras em silêncio. Pare de olhar para essas linhas, pensando que é alguém que lhe escreve. Não estou nem aí pro que você vai pensar depois de terminar de ler minhas impressões, eu saí do retângulo, das batidas mecânicas dos ponteiros, misturei-me aos números, nas horas, a hora de parar com a leitura pode ser agora, mas você que me lê até aqui vai pensar que estou maluca, esquizofrênica, essas palavras de polêmica é para que você dê um solavanco no banco de praça que não senta, na graça que não se apresenta. Sessenta segundos e vá às favas seu contentamento que cimenta meus sentimentos. Não era para terminar assim, não era pra você chegar até aqui, não era a era de uma vez, de um relógio com as partes sem partes...a arte do descarte, vou vazar. Tic-tac.  

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