Limpando as botas do diabo


Amanheci mais tarde nesse dia, escolhendo com certa precisão as palavras, antes mesmo de pronunciá-las. Um cuidado quase meticuloso para dirigi-las a minha família. Minha filha e esposa perceberam, sem muito estranhamento, a ausência de ações, o silêncio das reações. Biju deitou debaixo da mesa, esperando os próximos passos desse preguiçoso, esse tipo de esquisitão de domingo.

Na mesa, alguns poucos livros: “O dueto dos gatos”, de João Carlos Marinho, “Contos de João Alphonsus”, “Dez anos e nove meses” de Fred Paronuzzi, e o livro que sugeriu a escrita deste relato de um certo latente...: “Um solitário à espreita”, do amazonense Milton Hatoum.

Miton Hatoum
Embora mais reconhecido como romancista, desde sua estreia na literatura com o premiado “Relato de um certo oriente”, o livro que se encontrava sobre a minha mesa é de crônicas que foram publicadas na última década, em jornais e revistas. Trata-se de uma publicação da Companhia das Letras e foi lançada no último ano.

Fiquei – vou ficar por um bom tempo – no canto esquerdo da mesa, lendo as maravilhosas narrativas que compõem as frestas do solitário escritor. No rádio uma música ambiente, instrumental, pois quero apenas o som das palavras de Manaus e os ritmos da infância na descida/subida do rio.

Como diz sempre meu amigo – Paulo Fernandes – referindo-se às funções da arte e da poesia, as crônicas do Hatoum me salvaram, reumanizando-me de um modo mais introspectivo, essência do substantivo impróprio do ser.

As crônicas lidas até o momento – são um total de 96 narrativas -  transportaram-me para um lugar “onde a ingenuidade era a irmã siamesa do desatino e dos sonhos da juventude”. Lá na casa onde o narrador luta com as palavras para fiar a vida dos personagens. E quando surge algum intruso, pessoa desagradável nas redes da memória, a mãe de uma amiga diz: “Ah, deve estar no inferno, limpando as botas do amigo dele”.

Vou avançando na leitura despretensiosa desses magníficos textos, enquanto minha pequena ouve e aplaude, lá no computador, as histórias dos Bichos-de-Versos, do poeta Pierre André. Minha esposa limpa os vidros da janela, arruma a casa. Biju? Ajeita-se na cadeira, preparando-se para mais um sono. Ela é uma cadela que aprendeu verdades sobre o domingo.


Encontro-me mais leve, pós-pausa breve que quebrou a neve desses meus passos dispersos na prosa desses malvados versos. 
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